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A Síria deixará de ser um Estado e guerra civil será pior do que a do Líbano dos anos 1980

gustavochacra

18 de julho de 2012 | 09h04

O atentado de hoje que matou o ministro da Defesa, Daoud Rajha (cristão), e o cunhado de Bashar al Assad, Assef Shawkat,  não é o início de uma era de democracia e tampouco da queda do regime. Significa um agravamento irreversível da guerra civil com uma violência que tornará Damasco em uma nova Bagdá da década passada ou Beirute dos anos 1980.

Será um caos com as forças de Assad incapazes de controlar a oposição. Os opositores tampouco terão condições de derrubar o regime. E, mesmo que consigam, enfrentarão no futuro uma violenta insurgência de milícias alauítas e cristãs bem armadas e sem nada a perder. A Síria se transformará por meses ou mesmo anos em um Estado falido e ingovernável como Iraque de 2006, o Líbano de 1982 ou a Somália mais recentemente.

Nos próximos dias e semanas, o regime passará a usar suas forças de elite, majoritariamente alauítas e cristãs, contra os opositores que são em sua maioria sunita. Depois do atentado de hoje, eles serão ainda mais violentos contra as forças da oposição e lutarão até a morte por sua existência. Todas as armas à disposição, e são muitas, serão utilizadas.

No interior e mesmo na capital, as Shabiha, como são chamadas as milícias leais ao regime controladas por alauítas e cristãos, também intensificarão seus massacres para se vingar do atentado de hoje que alvejou autoridades que representam estas religiões. Ações nos moldes de Sabra e Shatila no Líbano em 1982, ou mesmo de Houla na Síria semanas atrás, devem acontecer nos próximos dias. Eles não estão interessados mais no que a comunidade internacional irá pensar.

A oposição, por sua vez, conseguiu uma vitória e não deve desperdiçar o momentum. Sabe que conta com amplo apoio da população e este tende apenas a aumentar com o sectarismo. Afinal, os sunitas árabes são 60% da população, contra 10% de cristãos, 10% de alauítas, 10% de druzos e 10% de curdos (etnia) sunitas. Além disso, a tendência é de que acabem chegando ao palácio de Assad.

Por último, diante dos recentes acontecimentos, Assad pode sim concordar em ir para o exílio em troca de garantias de não ser processado pelo Tribunal Penal Internacional. O líder sírio não é irracional como Muamar Kadafi. Tende a agir mais como Ben Ali ou Muamar Kadafi. A comunidade internacional, via Rússia, deve agir urgentemente para tentar convencê-lo.

Maher al Assad, seu irmão, é diferente. Não deve abandonar o barco, além de ser o comandante de facto das Forças Armadas. Irá até o fim, mesmo longe do palácio em Damasco, buscando até refugio em áreas alauítas se necessário.

Hoje, apesar do atentado, que fique claro, Damasco ainda está nas mãos do regime. Mas nunca antes se viu uma chance tão grande de os pilares de Assad ruírem rapidamente.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

no twitter @gugachacra