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A terra do carro-bomba e das teorias da conspiração

gustavochacra

02 de outubro de 2008 | 10h01

O Líbano é a terra do carro-bomba. Já explodiram dezenas na história deste país. E nunca ninguém sabe quem são os responsáveis por colocar os explosivos dentro do veículo a ser detonado. Tudo sempre é um mistério aqui no país dos cedros. Nesta semana, houve mais uma explosão. Em Trípoli. Quem foi? Bom, há suspeitas, mas nada provado. Nem reivindicado.

Foi assim quando mataram o presidente René Moawad e outras 23 pessoas dias após ele tomar posse em novembro de 1989. Treze anos mais tarde, Elie Hobeika, um líder cristão radical que mudou de campo diversas vezes ao longo da sua vida, foi morto quando uma Mercedes explodiu quando ele dirigia sua Land Rover. Nos dois casos, nenhum culpado.

O mais célebre dos atentados com carro-bomba foi o que matou, em fevereiro de 2005, Rafik Hariri no centro de Beirute, próximo aos mais caros hotéis da cidade, em episódio que alterou o rumo da história do Líbano. Ex-premiê, Hariri era o símbolo da reconstrução de Beirute e, após anos no governo, havia se tornado líder da oposição.

Em uma das principais vias de Beirute, há um painel com uma imagem de Hariri e um número do lado. O 1.324, que era o que estava marcado hoje, exibe o total de dias que já se passaram desde que o ex-premiê foi assassinado sem que ninguém tenha sido punido.

Aliá, até hoje, nenhum desses ataques e das dezenas de outros que ocorreram antes e depois, culminando com o de Trípoli, foram investigados com seriedade. Os responsáveis por esses atentados ficaram soltos e podem estar, neste momento, planejando outro ataque terrorista usando um carro-bomba.

A consequência óbvia desses mistérios é a emergência de teorias da conspiração. Cada pessoa em Beirute terá a sua versão para explicar o que ocorreu em cada um desses atentados. Tudo vai depender de quem é o interlocutor, qual a afiliação política, a religião, o lugar onde reside, o emprego e a sua capacidade criativa.

Mas há tendências. No ano passado, quando explodia um carro-bomba, a maior parte da população apontava para a Síria. Agora, grupos ligados à Al Qaeda são os suspeitos mais comuns. Mas outras hipóteses são sempre levantadas. Talvez, cada ataque tenha um autor diferente e em circunstâncias totalmente distintas. Há apenas a certeza de que os responsáveis têm vergonha ou medo dos ataques terroristas que cometeram ou ordenaram.

É o oposto do que ocorria em Israel durante a Intifada palestina. Na época, quando ocorria um atentado contra israelenses, chegavam a aparecer três organizações palestinas para assumir o ataque – o Hamas, o Jihad Islâmico e as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa. Já na Espanha, nos anos 80, era sempre o ETA, assim como IRA na Irlanda.

Por que no Líbano é diferente? Deixo aberto para o debate.

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