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A triste história da decadência dos clubes esportivos e do crescimento das academias

gustavochacra

21 de outubro de 2009 | 12h15

Em Nova York, não há clubes como o Pinheiros, Paulistano, Hebraica, Sírio, Espéria ou Palmeiras. Lugares onde se pode jogar tênis, nadar, entrar no campeonato interno de futebol, fazer uma sauna, conversar com os amigos em uma mesa de bar, ir à sinuca, ver um filme, abrir um livro em uma biblioteca, conhecer quase todas as pessoas desde que nasceu. Como São Paulo, conheço Buenos Aires, com seus clubes decadentes da época que ainda se levantava o corpo inteiro no abdominal e a musculação era chamada de halteres. O Cairo, por incrível que pareça, também tem seus clubes, como o Zemalek e o Gezira.

Mas, aos poucos, ficamos todos como Nova York. Clubes como o Tietê estão à beira da falência, o Juventus perde sócios e outros fazem promoções para atrair frequentadores. Entramos na era das academias. Ninguém quer mais ir ao clube jogar 21 parado na quadra de basquete, fazer um time misto de vôlei, organizar uma equipe de futebol, defender o Paulistano no pólo contra o Pinheiros ou disputar um torneio de domingo no tênis. Antes, correr era o Cooper, de uns 12 minutos, se não estou enganado. A corrida da vida era a São Silvestre, com seus 15 km, na noite de réveillon. Arte marcial era o judô e o karatê.

Agora, tudo mudou. Eu nado em uma academia de Nova York. Mas, outro dia, decidi subir para ver o restante da Equinox, uma das mais renomadas da cidade. Eram pessoas correndo nas esteiras, outras em máquinas de tortura na sala de pilates, aparelhos ultra modernos de peso e sala lotada para uma aula de Yoga. Nenhuma crítica e dá para perceber que as pessoas estão mais em forma do que nos tempos dos clubes. A alimentação também ajuda, já que os alimentos da lanchonete são todos naturais e nutritivos, não mixto quente (acho que é com “x” o nome do sanduíche, mas me corrijam) e uma fanta ou guaraná Taí.

Arte marcial se tornou Vale Tudo, correr uma maratona não impressiona mais ninguém – tenho amigos com cinco IronMan nas costas –, algumas pessoas ficam anos sem participar de uma partida de basquete ou vôlei. Outros não jogam handball desde a última aula de educação física no terceiro colegial. Ping-pong só se for naquelas salas de jogos esquecidas da fazenda de alguém. O Paulistano fechou a sua pista de autorama. O xadrez ainda segue, mas soube que um clube apenas dedicado a esta modalidade no centro não existe mais. O próprio Estadão não publica mais a sua coluna de xadrez.

Insisto, nada contra a academia e realmente a Yoga é bem mais antiga do que o ping-pong. O Pilates também é um enorme avanço e mexe com músculos não utilizados em ginásticas mais antigas, como a sueca. Mas sinto falta dos clubes, com toda a sua decadência, sua sala de troféus (alguma academia produziu um Cesar Cielo ou um Gustavo Borges, como o Pinheiros?), e com seus vestiários antigos. O Ariel Palácios, correspondente do Estadão na Argentina, jura que, no seu armário no Gimnasia Y Esgrima de Buenos Aires (aliás, onde se pode praticar esgrima a não ser em um clube?), há uma inscrição dizendo “José, 14 de Julio de 1932”. Gimnasia y Esgrima, clube que ainda mantém cinco quadras de pelota basca e, na sua sede de Palermo, um belo campo de rugby.

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