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A travessia da fronteira sírio-libanesa

gustavochacra

17 de novembro de 2008 | 21h47

Beirute e Damasco são próximas. A viagem demoraria uma hora e meia se não houvesse a necessidade de parar na fronteira. Porém, com a burocracia, leva-se em média três horas se for de carro ou quatro de ônibus. Há três opções para quem não tiver veículo próprio para ir de uma cidade para a outra. A primeira, mais barata, é pegar um ônibus. Mas há a desvantagem de ter que esperar todos os passageiros passarem pelos trâmites da imigração. A segunda, e também barata (cerca de US$ 20), é dividir um taxi com outros viajantes no que é conhecido como “service”. A terceira, mais cara porém prática, é contratar um motorista.

Ao sair de Beirute, sobe-se uma serra, que nada mais é do que os Montes do Líbano. Nesta etapa da viagem, após cerca de 20 minutos, passa-se por Alley, um recanto de veraneio apreciado pelos turistas do golfo. Uma vez no alto, começa a descida em direção ao Vale do Beqaa que, para mim, é a região mais bonita do país – eu sei, muitos aqui dirão que os cedros de Bshari são inigualáveis, mas eu tenho um carinho especial pelo Beqaa porque neste lugar nasceram meus avós paternos.

A primeira cidade do vale é Shtoura. Feia, sem charme, mas uma parada obrigatória. Não para passear, mas para comer um sanduíche de Jebneh (queijo) ou de coalhada. Eu peço os dois juntos, mas eles ficam aborrecidos. Ou é queijo, ou é coalhada. Nunca os dois.

A jornada prossegue. À esquerda, dá para ver Zahle, a “noiva do Beqaa”, com os tão conhecidos restaurantes do rio Bardauni. Mais adiante, um pouco antes da fronteira, a charmosa Anjar, cidade de armênios mas que virou QG da Síria durante a ocupação militar que se encerrou em 2005.

Dois quilômetros adiante e damos de cara com a fronteira no lado libanês. São uns prédios de dois andares, com lanchonetes e casas de câmbio ao redor. Cada um pára o carro onde quiser, ainda que interrompa o trânsito. Bem ao estilo libanês. Dentro, os guichês. Há quatro filas. Respectivamente, para libaneses, sírios, diplomatas e estrangeiros.

Mostro o meu passaporte. O guarda da fronteira lê o meu sobrenome. E começa o diálogo

Guarda – Você é libanês?
Eu – “Jidô” (avô) é, mas que eu nasci no Brasil.
Guarda – “Ktir” (muitos) libaneses no Brasil.
Eu – Ktir
Guarda – “Chacra ou Abu Chacra”?
Eu – Chacra
Guarda – “Dursi” (druzo)?
Eu – Não, cristão ortodoxo
Guarda – De onde é seu avô?
Eu – De Rachaya
Guarda – Aqui no Beqaa! Você tem tirar o passaporte libanês

E carimba o meu passaporte. Volto para o taxi. Inspecionam o veículo uns metros adiante. E entramos na “No Man’s Land”, que na verdade é território sírio, cruzando a estrada em meio a montanhas áridas. São cerca de cinco quilômetros até chegarmos à imigração da Síria. É inacreditável. Todos os guardas da fronteira têm o bigodinho do líder sírio Bashar al Assad, cujas fotos estão penduradas na parede. E fazem poucas perguntas. No meu visto de jornalista, já estão todas as minhas informações. Antes de sair, digo para o guarda que ele parece o Bashar. Ele abre um sorriso de satisfação. Chama os outros colegas para esnobar. Eu vou embora.

Após passarmos por uma rápida alfândega onde apenas abrem o porta-malas, paramos para conhecer o free-shop. Várias marcas americanas e o maior Dunkin Donuts que já vi na vida. E olha que morei muitos anos nos Estados Unidos. Mais uns 30 quilômetros de viagem com as propagandas da companhia de celular síria, que substituíram os posterês do Assad, e dá para avistar Damasco, que dizem ser a cidade mais antiga do mundo continuamente habitada. Fim da viagem. Mais ou menos como Santos-São Paulo ou Rio-Petrópolis.

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