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Abbas tem boas intenções, mas não é o estadista que os palestinos sonham

gustavochacra

13 de outubro de 2009 | 19h30

Quando estive na Cisjordânia, em janeiro, escrevi aqui no blog que Mahmoud Abbas era descrito pelos palestinos como o prefeito de Ramallah. Deixou a cidade organizada, mas esqueceu do restante do território palestino e também do ideal de construir uma nação.

Concordo com esta visão. Nos quatro anos que passei sem visitar Ramallah, não deu para deixar de observar a limpeza, os jardins bem cuidados, a maior segurança e os novos restaurantes e bares que davam ares cosmopolitas para a sede da Autoridade Palestina. Ao mesmo tempo, Abbas não conseguiu se tornar um estadista. Abu Mazem, como é conhecido, perdeu a chance de se transformar um verdadeiro líder palestino.

Por um lado, sua disposição diplomática é elogiável, concordando em se sentar à mesa com os israelenses e a negociar um plano de paz satisfatório para os palestinos, mas que seja aceitável pelos israelenses. Por outro, os palestinos não se sentem representados por Abbas e se frustraram com a sua incapacidade de conseguir qualquer resultado no campo político, apesar do mérito dele em melhorar a segurança e desenvolver a economia, em cooperação com Israel e os EUA.

O problema é que cem por cento dos palestinos, ou alguma coisa um pouco menor, apoiaram o relatório da ONU com as acusações de crimes de guerra em Israel. O texto não é perfeito, mas os palestinos consideravam importante e queriam que o tema fosse levado para o Conselho de Segurança. Mas Abbas, pressionado pelos Estados Unidos, preferiu não levar o assunto adiante. O presidente palestino sabe que precisa dos americanos. Quando a Cisjordânia quase caiu em cima dele, com enormes manifestações nas ruas, ele voltou atrás. Tarde demais. Passou a ser visto como ainda mais fraco pelos palestinos e como não confiável pelos israelenses.

Uma das grandes vantagens de Israel em relação aos palestinos e que foi um fator decisivo na criação de um Estado judaico e não de um árabe foi a liderança israelense. Ben Gurion soube ser pragmático. Os palestinos, na época, não tinham ninguém para representá-los, a não ser as outras nações árabes. Mais tarde, o mesmo ocorreu com Begin ao assinar a paz com o Egito. Eles, entre outros líderes israelenses, foram visionários, pensaram em construir uma pátria.

Yasser Arafat, no lado palestino, teve o seu papel, correto ou não, de trazer a causa palestina para superfície, em colocar na agenda internacional a importância da criação de um Estado para cristãos e muçulmanos palestinos. Porém, como presidente, não poderia ter sido pior. Sequer pode ser descrito como um líder tribal. Transformou o Fatah em uma espécie de partido peronista (justicialista) do Oriente Médio.

Abbas, seu sucessor, e o atual premiê Salam Fayyad, de linha independente, são melhores administradores. Também são, certamente, as figuras mais moderadas no lado palestino que os israelenses poderão negociar. Qualquer outra opção é bem mais radical. Mas os dois não são estadistas. E esta qualidade é fundamental na hora de conseguir alcançar um ideal, como a criação de um Estado palestino. Por mais bem intencionados que sejam, não são Begin e tampouco Ben Gurion. Podem estar no nível de um Banjamin Netanyahu. Mas o atual premiê de Israel já tem o seu sonho realizado, de viver em um Estado judaico. Abbas e Fayyad, não. Eles não vivem em um país de cristãos e muçulmanos palestinos.

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