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Afinal, o Líbano é mais “ocidental” do que o Brasil?

gustavochacra

02 de novembro de 2013 | 19h47

Já escrevi aqui no passado que, no Ocidente, para muitos ocidentais, o Brasil não é ocidental. Recordo-me certa vez aqui no Líbano quando um libanês amigo meu ficou surpreso quando disse que nós brasileiros éramos ocidentais. E mais ainda quando disse que, no Brasil, o Líbano não era visto como parte do Ocidente.

Para Samuel Huntington, autor do livro O Choque de Civilizações, nenhum dos dois países é ocidental. Nós faríamos parte da chamada civilização latino-americana e o Líbano, com 40% (pelo menos) da população cristã, assim como o presidente e o Parlamento, seria da Islâmica. Não me perguntem como a Argentina teria mais em comum com a República Dominicana do que com a Espanha porque não saberei responder. Assim como jamais terei condições de encontrar um argumento, sem ser geográfico, para colocar Portugal mais próximo da Suécia do que do Brasil. Da mesma forma que os francófonos libaneses estão com a Indonésia e não com a França.

Na verdade, os libaneses não são apenas ocidentais. São uma mistura impressionante do Ocidente com o Oriente, por mais clichê que isso possa parecer. Mas são, o que posso fazer? Hoje não fui atrás de refugiados sírios, bombas em Trípoli ou da fronteira com Israel. Andei, com meus pais, pelas áreas cristãs de Beirute. Tomamos café no Paul, em Gemeizah, e depois assistimos à missa em francês na Igreja de St. Joseph – mais tarde haveria em inglês, e há horários em italiano e árabe.

Seguimos pelas calmas ruas de Ashrafyeh, que poderiam facilmente ser confundidas com as do Leblon ou do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, cruzando pela rua St. Nicholas. Jantamos no tradicional restaurante Abdul Wahab e depois fomos ao shopping ABC, onde a livraria Antoine tem mais livros em francês e inglês do que em árabe. Não há praticamente nada escrito em árabe e seria impossível, de verdade, diferenciar do shopping Iguatemi. Aqui no meu hotel há uma balada no cobertura, ao redor da piscina, que não fica atrás de nenhum rooftop bar de Nova York no verão americano.

Portanto não caiam nesta história de que “os árabes” odeiam o Ocidente. É mentira ou ignorância de quem faz esta afirmação. Muitos libaneses são sim críticos e até inimigos de Israel e dos EUA. Mas isso não os impede de frequentar a Universite St. Joseph ou a American University of Beirut. E isso se aplica aos cristãos e muçulmanos do Líbano. Eles se consideram, acima de tudo, ocidentais. Assim como nós brasileiros também nos consideramos.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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