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Afinal, dá para explicar a Guerra da Síria? Sim, em 10 itens no blog

gustavochacra

05 Setembro 2015 | 13h35

Algumas pessoas têm me perguntado por que os EUA, as nações ocidentais e mesmo os países do Golfo Pérsico não acabam com a Guerra da Síria. A resposta é que, se fosse simples encerrar o conflito, tenham certeza que este já teria acabado. Mas vou tentar aqui explicar como está a guerra em 10 parágrafos.

1. Primeiro, a Síria era uma nação estável, governada por um regime laico dominado pelo partido arabista Baath, com Bashar al Assad no comando. Basicamente, um regime de partido único, não muito diferente do que vimos em países da América Central e do Sul nos anos 1970. Lembrem, o nome da Síria é República Árabe Síria, não “República Islâmica”. E no Baath e nas Forças Armadas há membros de todas facções religiosas, incluindo ateus.

2. Em segundo lugar, em 2011, a Primavera Árabe atingiu a Síria. E rapidamente houve uma escalada militar. O regime de Assad reprimiu com dureza os opositores. Os rebeldes da oposição se radicalizaram, adotando visões extremistas islâmicas, como a Wahabbita. Nos quatro anos de conflito, cerca de 250 mil pessoas morreram e milhões ficaram refugiadas, como vemos agora.

3. Terceiro, hoje a Síria pode ser dividida em três principais áreas. A primeira, que contém as maiores cidades, incluindo Damasco, e a costa Mediterrânea, está nas mãos do regime de Assad. Muitas áreas de Aleppo também estão com o governo. A segunda, mais perto da fronteira com o Iraque, é controlada pelo ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh). Uma terceira parte, perto da fronteira com a Turquia, está sob controle de dezenas de milícias extremistas, muitas delas ligadas à Al Qaeda. Há, por último, algumas zonas curdas autônomas que são inimigas do ISIS, mas mantêm neutralidade em relação ao regime de Assad. Se você vir um mapa, talvez ache que Assad controle pouco território, mas grande parte da Síria é deserto.

4. Quarto, o regime de Assad tem o apoio externo da Rússia, do Irã, do Hezbollah e do governo iraquiano. Houve também uma aproximação recente com o Egito. As milícias radicais da oposição são patrocinadas acima de tudo pela Turquia, Arábia Saudita e Qatar – em menor escala, pelos EUA e França. O ISIS, teoricamente, não é aliado de ninguém, mas possui uma relação ambígua com a Turquia e braços do regime saudita.

5. Quinto, a Síria é uma nação multi-religiosa. Tem 60% de muçulmanos sunitas árabes, 10% de sunitas curdos (curdo e árabe são etnias), 10% de cristãos (majoritariamente ortodoxos, com minorias melquita, maronita, assíria e siríaca), 10% de muçulmanos alauítas (alauíta é uma braço do islamismo, assim como sunitas e xiitas) e 10% de outras minorias, especialmente druza – os xiitas são uns 2%.

6. Sexto, a maior parte da população síria não apoia ninguém. Mas cristãos, alauítas, drusos, xiitas e as elites sunitas das grandes cidades temem a queda de Assad e do regime. Avaliam que, no lugar, entrará um grupo como o ISIS ou a Al Qaeda e destruirá Damasco. Cristãos e alauítas chegam a montar milícias independentes para defender o regime. Uma parcela mais conservadora da população sunita apoia milícias rebeldes. O ISIS possui pouco apoio internamente na Síria. Mas, insisto, a maior parte dos sírios não apoia ninguém.

7. Sétimo, todos os lados envolvidos na Guerra da Síria cometeram crimes contra a humanidade. Por exemplo, usaram armas químicas, torturam, bombardearam, estupraram, decapitaram e fizeram coisas inimagináveis.

8. Oitavo, há duas coalizões internacionais combatendo o ISIS. Uma comandada pelos EUA, com o apoio de nações árabes e ocidentais. Outra, comandada pelo Irã, com suporte da Rússia, do regime de Assad, do Hezbollah e de milícias xiitas iraquianas. O Exército libanês, o Exército iraquiano e os guerreiros Pesh Merga do Curdistão são aliados de ambas.

9. Nono, guerras civis como a da Síria costumam terminar apenas com a) saturação de todos os lados envolvidos, b) intervenção externa, c) partilha (ou federalização) do território e d) vitória de uns lados. No caso, os lados não estão saturados, nenhum dos envolvidos tem condição de uma vitória total e já há intervenção externa, sem sucesso – lembrando que intervenções em escala maior, como no Iraque e no Afeganistão, foram um fracasso total. Na prática, já existe a partilha. Mas esta não foi suficiente para acabar com as mortes.

10. Décimo, a Guerra da Síria ainda demorará anos e não se encerrará com a queda de Assad ou a derrota do ISIS. Como disse um analista da Al Jazeera, o conflito continuará no fundo do poço, apenas mudando de lado

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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