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Afinal, o que os EUA acham da relação Brasil-Cuba?

gustavochacra

28 de janeiro de 2014 | 12h47

Os Estados Unidos não dão importância para Cuba e Venezuela nos dias de hoje. A Argentina, quando é notícia, estaria, para a economia, como o Líbano está para a política. Um país que consegue fazer tudo errado sempre. O Brasil é visto como BRICS, não sendo encaixado hoje apenas na chamada América Latina, composta na realidade por quatro regiões geográficas – América do Sul, Central, Caribe e México. Falando em México, esta nação, assim como o Brasil, também é vista como um bloco separado para os EUA.

Ontem houve um encontro em Cuba. Muito se falou de Dilma se aproximando de Raul Castro com a construção do porto de Mariel e os EUA ficando irritados. Mas vamos aos fatos. Primeiro, no briefing do Departamento de Estado, o encontro de Cuba não foi citado em mais de uma hora. Falaram de Afeganistão, Israel-Palestina, República Centro-Africana, Ucrânia, Rússia, ONU, Irã, Síria e Japão. Da nossa região, nada. Hoje saiu uma matéria relativamente positiva do encontro no New York Times.

Em segundo lugar, muitos no governo americano veem com bons olhos a aproximação do Brasil com Cuba. Acham que os brasileiros podem servir de interlocutor. A administração Obama é a favor do fim do embargo, mas questões políticas domésticas, como a importância do eleitorado cubano-americano na Flórida, impedem os EUA de fazerem negócios com o regime de Raul Castro e de publicamente defender o fim de uma das mais ineficazes medidas punitivas da história da humanidade – em 50 anos, não conseguiu derrubar um regime em uma ilhota caribenha que dá, literalmente, para ir nadando até a Flórida.

Lembro que os americanos são parceiros econômicos de regimes supostamente comunistas (não são mais, óbvio), como Vietnã, China e Laos e de ditaduras com apartheid contra as mulheres, como a Arábia Saudita.  Além disso, alguns acreditam que porto de Mariel será fundamental no futuro bem próximo para o comércio entre EUA e Cuba (não sei se deveria ser prioridade para o Brasil porque não sou especialista em política brasileira e há pessoas bem mais capazes de avaliar esta questão). É óbvio que, em alguns anos, o embargo a Cuba vai acabar nos EUA e o porto ganhará importância. Talvez, simbolicamente, quando nenhum dos Castro estiver na face da Terra.

Por último, as relações bilaterais entre EUA-Brasil podem ter ficado estremecidas depois do episódio Snowden, com as denúncias de espionagem de Dilma – o mesmo ocorreu com a espionagem de Merkel e a Alemanha. Mas os dois países (Brasil e EUA) têm se aproximado em diversas áreas, como educação. Basta ver a quantidade de brasileiros estudando nos EUA. E os americanos consideram o Brasil um aliado regional, embora abaixo de nações como Reino Unido, Canadá, México e Israel, mas certamente acima de China, Rússia e Venezuela.

 Estaríamos no mesmo patamar da Índia. Discordamos em algumas questões internacionais, mas concordam em outras – Washington e Israel também divergem em uma série de temas, como na questão nuclear iraniana, que é a prioridade número 1 de Washington, e no futuro do Egito, maior país árabe do mundo.

Em nove anos nos EUA, nunca vi o Brasil ser classificado como hostil. O que se comenta hoje é a má condução da política econômica brasileira no governo Dilma (Lula costuma ser elogiado), dos protestos, da Copa e um pouco de corrupção – nenhum país do mundo se interessa por casos de corrupção doméstica em outra nação. Realmente, o país está em evidência e até o rolezinho teve direito a reportagens nos principais jornais do país. Mas jamais colocaram o Brasil como antagônico aos EUA.E o “oba-oba” de 2010 e 2011 acabou, com os problemas brasileiros, óbvios para qualquer um, recebendo mais atenção.

Sem dúvida, em termos pessoais, Clinton e Fernando Henrique ou Lula e Bush eram muito mais próximos do que Dilma e Obama. Mas o mesmo se aplica a Barak e Clinton e Bush e Sharon quando comparados a Obama e Netanyahu.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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