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Afinal, quem está certo em Honduras? E como o Brasil entrou na bagunça?

gustavochacra

21 de setembro de 2009 | 18h28

O Brasil aparentemente foi pego de surpresa pela chegada do presidente deposto, Manuel Zelaya, a Honduras. Ao menos foi o que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, acabou de dizer em entrevista na missão brasileira nas Nações Unidas aqui em Nova York. O chanceler afirmou que uma deputada entrou em contato com o encarregado de negócios da Embaixada em Tegucigalpa dizendo que a mulher de Zelaya queria conversar com ele. Em seguida, ela avisou ao diplomata que o presidente deposto estava nos arredores. Minutos depois, com a autorização de Brasília, Zelaya entrou na Embaixada.

Estive em Honduras por três semanas cobrindo a deposição de Zelaya e fui agora à entrevista. Parecem dois mundos distintos. A maior parte do Parlamento, os dois principais partidos, a Suprema Corte, a Igreja Católica (forte em Honduras), os evangélicos, os jornais, os dois principais candidatos presidenciais e as Forças Armadas defendem o governo de fato de Roberto Michelletti.

Zelaya argumenta ter sido vítima de golpe. Já os governantes e todos os setores acima citados dizem que foi respeitada a Constituição. O texto é claro ao dizer que a Suprema Corte pode retirar os poderes do presidente caso ele tente alterar a Constituição. Não existe processo de impeachment, como no Brasil ou nos Estados Unidos. Zelaya convocou um plebiscito para uma consulta sobre uma mudança constitucional. Os juízes e o Exército entenderam que era uma tentativa de reforma e removeram o presidente, que foi colocado em um avião e expulso de Honduras. Em seu lugar, assumiu o presidente do Congresso, ironicamente pertencente ao mesmo partido.

Amorim concorda integralmente com a visão de Zelaya e chama todo o tempo os eventos em Honduras de golpe. Diz não reconhecer de forma alguma o governo de fato. O governo do Brasil, segundo ele, não conversará com Michelletti e as autoridades hondurenhas a não ser para temas como a coleta de lixo. Zelaya foi eleito como moderado, mas, durante o seu mandato, radicalizou o discurso e se aproximou de lideranças populistas como Hugo Chávez, Daniel Ortega, Rafael Correa e Evo Morales.

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