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Entenda os conflitos no Yemen, novo foco da Al Qaeda

gustavochacra

28 de dezembro de 2009 | 23h03

A Al Qaeda aos poucos transforma o Yemen no seu novo centro de operações, abandonando o Afeganistão e regiões fronteiriças do Paquistão. Consultorias de risco político, como a Stratfor, já alertavam desde o ano passado sobre os riscos de atentados no Ocidente ocorrerem a partir do país árabe, como talvez tenha sido o caso da ação frustrada no avião que aterrissava em Detroit. Apesar de ainda não possuir grandes campos de treinamento, a organização se aproveita da deterioração do Estado nacional iemenita, que enfrenta três conflitos internos simultaneamente.

O presidente Ali Abdallah Salih, com ajuda da Arábia Saudita, combate no norte os rebeldes Houthis, que seguem uma corrente do islamismo próxima dos xiitas – o Yemen é majoritariamente sunita. Ontem, segundo informações não confirmadas, o líder da organização Abdul Malik Al Houthi, teria sido morto em combates contra tropas do governo. Existem acusações de que o Irã ajudaria o grupo. Os rebeldes negam. “A grande preocupação dos sauditas é que o Yemen se torne, de vez, um Estado falido. Quanto à insurgência no noroeste, Riad atua fornecendo armamento e auxílio técnico-militar ao governo iemenita. Mas seria exagero achar que há uma Guerra Fria entre Arábia Saudita e Irã no Iêmen. Trata-se, sobretudo, de um conflito local”, afirma David Bender, analista da consultoria de risco político Eurasia.

No sul, o governo iemenita enfrenta separatistas. O país foi unificado em 1990. O norte havia se tornado independente quando o Império Otomano ruiu no fim da Primeira Guerra. O sul, desde a primeira metade do século 19, era controlado pelos britânicos, tendo como capita Aden, na costa. Em 1967, ficou independente da Grã Bretanha e, três anos mais tarde, se tornou comunista. Os atuais separatistas não adotam viés ideológico e são apenas integrantes de tribos que se opõem ao governo. Segundo Bender, “ao combater com firmeza a rebelião xiita no noroeste, o governo iemenita busca enviar uma mensagem inequívoca aos separatistas do sul do país: não busque as armas, ou os próximos serão vocês”.

Com os dois conflitos praticamente transformando o Yemen em uma espécie de Líbano na guerra civil, com um poder central quase inexistente e o território dividido entre facções rivais, ficou fácil para a Al Qaeda crescer. A organização, em 2000, explodiu o destroyer americano USS Cole, matando 17 marinheiros. Aliado de George W. Bush, Salih passou a reprimir duramente o grupo. A partir de 2004, a Al Qaeda ressurgiu, com muitos integrantes vindo da Arábia Saudita, incluindo antigos prisioneiros de Guantánamo. Em setembro do ano passado, dez pessoas foram mortas em explosões diante da Embaixada dos EUA em Sanaa.

Duas facções da Al Qaeda, uma da Arábia Saudita e outra do Yemen, se unificaram em janeiro sob o comando de Nasir al Wuhayshi. Hoje, segundo especialistas em terrorismo, ele se tornou mais poderosos até do que Osama Bin Laden dentro da organização, apesar de estar longe de ter o mesmo simbolismo.

Obs. Matéria minha em conjunto com Roberto Simon, publicada hoje, no Estadão

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