Alexandria resume a história recente do Egito
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Alexandria resume a história recente do Egito

gustavochacra

25 de março de 2009 | 08h00

A história do Egito nos últimos cem anos pode ser observada na fachadas de Alexandria, a mágica metrópole mediterrânea que ocupa o posto de segunda maior do país, depois do Cairo. Nas primeiras décadas do século passado, apesar de teoricamente ainda parte do Império Otomano, o Egito estava sob domínio britânico. Depois da Grande Guerra, a ocupação foi formalizada. Os ingleses se preocupavam com o controle do canal de Suez e o Egito era uma região estratégica para ser deixada de lado.

Alexandria, nesta época, era uma das metrópoles mais cosmopolitas do mundo. Com armênios, gregos, levantinos, franceses, ingleses, judeus, cristãos cooptas e muçulmanos egípcios mais liberais, a cidade ficou marcada na mente de uma geração de ocidentais com a série de livros “O Quarteto de Alexandria”. A vida envolvia idas a bares, restaurantes, romances, cafés e passeios por uma orla que lembra as de outras cidades mediterrâneas, de Marselha a Beirute, mas que faz parte de um passado esquecido como Izmir e Tessalônica.

Quando Nasser e os militares derrubaram a monarquia e expulsaram os britânicos, a cara de Alexandria começou a mudar. A elite que dava as cores da cidade deixou o Egito. Parte deles por questões econômicas. Os estrangeiros e algumas minorias perderam privilégios de que desfrutavam desde os tempos das capitulações. Judeus deixaram o Egito a partir da chegada de Nasser ao poder porque se sentiram perseguidos. O novo regime via a comunidade judaica como suspeita de laços com Israel, apesar de eles viverem em paz há séculos no Egito.

Sem esta população que era o rosto de Alexandria para o mundo, a cidade mudou de feição. Cresceu e hoje tem quase cinco milhões de habitantes que se espalham por mais 20 km de orla. Prédios novos foram construídos, com arquitetura sem graça, enquanto os charmosos edifícios do centro antigo pararam no tempo, com suas paredes descascando pela falta de pintura. A religiosidade, como em todo o Egito, cresceu. Se nos anos 1960 e 1970 as mulheres de classe média não usavam o hijab, hoje quase todas as muçulmanas de Alexandria e do Cairo cobrem a cabeça. A cidade também é sede do patriarcado coopta. Cristãos e muçulmanos convivem bem, mas as relações se deterioraram nos últimos anos. Como no resto do Egito, a desigualdade social não para de crescer.

Sem o carisma cosmopolita que a marcou, Alexandria aparenta ser uma cidade decadente. Mas, como símbolo de uma nova Alexandria que busca renascer, a gigantesca biblioteca erguida em frente ao mar traz de volta o sonho de que a cidade possa um dia retornar aos tempos de Alexandre o Grande, Cleópatra, do Farol e, claro, de ser o centro do conhecimento mundial durante séculos.

Estive em Alexandria em 2004, com a minha mãe, e nos hospedamos no tradicional hotel Cecil, o equivalente do Copacabana Palace local. Na época, me decepcionei muito com o que vi. Desta vez, cinco anos mais tarde, com um pouco mais de calma, descobri que a cidade ainda tem seu charme. Seria uma senhora que viu muita coisa errada acontecer. Que teve seu esplendor, quando era linda e disputada, mas foi esquecida, se voltou para dento em depressão. Hoje, na velhice, tenta se abrir novamente para o mundo. A única certeza é que Alexandria, ou Iskandaria, para os árabes, é uma palavra que sempre aparece na cabeça das pessoas que se interessam por história.

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