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A dificuldade do estereótipo – algumas muçulmanas vestem burka, mas outras preferem biquíni

gustavochacra

02 de fevereiro de 2010 | 20h36

Escutei várias vezes brasileiros relatando para estrangeiros no exterior histórias de pessoas que andam em carros blindados e de helicóptero no Brasil. Dá uma idéia de Blade Runner, como se fossemos assaltados em qualquer esquina de São Paulo ou do Rio. Na verdade, como sabemos, 99,99% dos brasileiros vão de carro, de ônibus, metrô ou mesmo a pé para o trabalho. Raros são os que já subiram em um helicóptero.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser verdade que há mais carros blindados no Brasil do que em qualquer outro país do mundo em tempos de paz. Portanto, é um sinal da situação brasileira a existência destes veículos. O mesmo vale para os helicópteros. Apesar de ser um percentual quase irrelevante, ainda assim é maior do que o das maiores cidades do mundo. Levando em conta, claro, que helicópteros são proibidos de sobrevoar algumas áreas de Nova York e de outras cidades.

No Oriente Médio, não é muito diferente. Não ocorrem atentados terroristas em Israel diariamente. Mas, entre 2000 e 20006, eles eram mais comuns do que em quase todos os países do mundo, menos o Iraque e o Sri Lanka. Isso não quer dizer que em Tel Aviv não exista vida normal, com jovens praticando kite-surf.

Na Guerra Civil do Líbano, como escreveu Thomas Friedman no seu livro “De Beirute a Jerusalém”, o torneio de golfe de um clube local foi cancelado por alguns meses. Mas continuou por grande parte dos 15 anos de conflito. Isto é, mesmo em uma guerra, os tiroteios não ocorrem o tempo todo. A vida segue. Adolescentes se formam na escola, alguns seguem para a faculdade, outros são contratados para o primeiro emprego, idosos se aposentam e, às vezes, até o cinema funciona normalmente. Nas férias, libaneses mais ricos viajavam para Europa e voltavam depois de um mês. Guerra não é apenas morte, apesar de muitas pessoas morrerem.

O exagero ocorre também em relação à posição das mulheres no mundo árabe e/ou islâmico. Ou da proibição das bebidas. Mulheres muçulmanas usam burkas. Mas também biquínis. Outro dia, no Facebook, um grupo de amigos palestinos de Ramallah organizava a balada e falava como se estivesse em São Paulo ou Barcelona. Comentavam sobre músicas, discutiam quais seriam as bebidas e se haveria muita paquera. Em Beirute, a vida noturna talvez seja mais movimentada do que em Belo Horizonte ou Curitiba. Certamente é mais cosmopolita. Meninas xiitas também ficam, beijam na boca, dançam. Aliás, o símbolo da mulher sexy no Líbano é uma xiita chamada Haifa Wehbe. Outras seriam mais conservadoras.

Verdade, muçulmanos bebem menos e o alcorão é contra o álcool. Mas sírios e libaneses disputam quem fabrica o melhor arak (licor de anis). E os vinhos do vale do Beqa ganham mercado.

Isto não significa que as sociedades árabes, incluindo a libanesa, sejam tão liberais quanto a sueca ou a brasileira. Na verdade, são bem mais conservadores. Porém existem várias outras faces. Também dizem que muçulmanos são radicais. Muitos deles são mesmo, como os integrantes da Al Qaeda. Talvez, em um percentual maior do que no judaísmo ou no cristianismo, onde também há radicais. Isso não significa que todos – ou a maioria – sejam radicais. Ou que, mesmo entre os radicais, ou conservadores, a maior parte defenda ataques suicidsa e odeie o Ocidente. Por este motivo, fica complicado estereotipar muçulmanos. Assim como não dá para dizer que no Brasil andamos de carros blindados e helicópteros.

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