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Ali Babá e os 40 ladrões seriam da Al Qaeda ? A visão errada do Oriente Médio

gustavochacra

05 de agosto de 2009 | 12h43

A revista New Yorker publicou, nas duas últimas semanas, uma longa e improvável reportagem sobre uma roadtrip pela Sibéria. De Moscou até o Pacífico. Em um dos trechos, o jornalista Ian Frazier diz que, na imaginação dos americanos – e eu incluo dos brasileiros –, a Sibéria, maior do que os Estados Unidos e a Europa juntos, seria um espaço vazio, sem nada, com um visual que se repete por milhares e milhares de quilômetros adentro. Na sua descrição, no entanto, descobrimos um território que, apesar de vazio, é um dos mais fascinantes e diversos lugares do planeta.

Certas vezes, a imagem do Oriente Médio também é simplificada, como a da Sibéria. Sempre relacionam o território com o deserto, esquecendo que há áreas verdes em muitos países. A população pode ser representada de acordo com a imagem orientalista do momento. Foram sultões das “mil e uma noites”, da música carnavalesca “allah meu bom allah” e das odaliscas. Décadas atrás, os árabes eram sensuais. Depois, veio a imagem dos milionários do petróleo, com seus óculos escuros, até chegarmos aos “terroristas muçulmanos” de hoje. Já pensaram que Alladin é muçulmano? Ali Baba e os 40 Ladrões poderiam ser uma célula da Al Qaeda?

Esta imagem simplificada é dos maiores equívocos que existem. Mahmoud Ahmedinejad tomou posse hoje com cadeiras vazias no Parlamento. O Irã, como vimos nas manifestações durante as eleições, está longe de ser um “bando de fanáticos religiosos”. O Fatah organiza seu Congresso em Belém, uma cidade cristã. Afinal, os palestinos não são necessariamente muçulmanos. Até a mulher de Yasser Arafat era cristã, assim como diversos integrantes do seu alto escalão. Sem falar em rivais, como George Habash. Os palestinos não querem Jerusalém Oriental porque a cidade seria sagrada para os muçulmanos – e cristãos também. Querem porque residem há séculos em Jerusalém.

A população do Oriente Médio pode ser árabe, turca, curda, armênia ou persa, entre outras etnias. Podem ser sunitas, xiitas, alauítas, cristãos ortodoxos, coptas, melquitas, maronitas, assírios, bahaí’s, judeus ou drusos. Podem ser hoje um egípcio com um blog pró-democracia, uma libanesa na aula de yoga ou capoeira que vota no Hezbollah, um palestino que abriu um restaurante novo em Ramallah e faz negócios com amigos judeus israelenses de Tel Aviv, um integrante da guarda revolucionária iraniana, um homossexual saudita que viaja para Beirute onde encontra com seu namorado do Kuwait para ir a uma das várias baladas gays da capital do Líbano, uma aeromoça da Qatar Airways ou um monge sírio que faz queijos. Podem ser Bin Laden, podem ser Alladin e podem ser Zidane. Podem morar na frente do mar em Alexandria, na conservadora e desértica Riad, na gastronômica Damasco, na cosmopolita Beirute, na reconstruída Bagdá, na ultra moderna e cafona Dubai, em um barco no rio Nilo, com um vizinho israelense em Haifa. Tem de tudo, como na Sibéria


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