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AMIA Parte 1 – O suposto envolvimento do Hezbollah no ataque em Buenos Aires

gustavochacra

18 de julho de 2009 | 14h34

Ninguém pode garantir com certeza quem cometeu os atentados contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992, e contra a AMIA (associação judaica na Argentina), na mesma cidade, há exatos 15 anos. Foram, juntos, dois maiores ataques terroristas da América do Sul.

Os principais suspeitos, segundo a Justiça Argentina, são o Irã e o Hezbollah. Depois de acompanhar de perto este caso em Buenos Aires e Beirute, não dá para concluir que os iranianos e a organização xiita libanesa sejam os responsáveis diretos pelo atentado. Tampouco pode-se dizer que são inocentes. A única conclusão é a de que as investigações argentinas são repletas de erros, o que leva a crer que alguém queira esconder algo.

Comecemos pelo Hezbollah. Ibrahim Hussein Berro, membro do grupo, teria sido o suicida responsável por explodir a van diante da sede da AMIA. O grupo libanês nega e afirma que ele morreu dois meses depois lutando contra israelenses no sul do Líbano e seu corpo está nas mãos de Israel. Curiosamente, na troca de prisioneiros de 2007, a organização não exigiu que o corpo fosse devolvido, alimentando as versões de que Berro morreu na Argentina.

O Hezbollah, como já escrevi diversas vezes aqui no blog, possui uma face política e assistencial, sendo um partido político, com escolas e creches. Ao mesmo tempo, conseguiu se tornar a mais poderosa milícia do mundo, tendo como principal inimigo Israel e, em menor escala, sunitas libaneses.

Nos anos 1980, o Hezbollah recebeu acusações de envolvimento no sequestro de estrangeiros na guerra civil libanesa. Naim Qassem, número dois do grupo, afirma que estes atos foram realizados por facções islâmicas que compartem dos ideais do Hezbollah, mas não pela organização. Também diz não ter participado do atentado contra o avião da TWA em 1985. Para completar, o grupo nunca foi claro sobre o ataque contra a Embaixada americana em Beirute e contra os marines no aeroporto do Líbano na mesma década. Na verdade, nesta época, sequer era usado o nome Hezbollah.

Segundo Robert Baer, principal agente da CIA para o Oriente Médio nos anos 1980, o ataque contra os americanos no Líbano foi realizado “pelos iranianos”, não pelo Hezbollah. As ações da organização sempre estiveram restritas ao sul do Líbano durante a ocupação israelense e, depois, com o lançamento de mísseis contra o norte de Israel, buscando se legitimar como resistência, afirma Judith Palmer Harik, uma outra estudiosa da organização. O grupo nunca cometeu atentados suicidas em cidades israelenses. Suas táticas são distintas das do Hamas. Todos os 12 ataques suicidas do Hezbollah ocorreram nos anos 1980 e dentro das fronteiras libanesas, segundo Robert Pape, da Universidade de Chicago.

A organização xiita libanesa, ao longo dos anos 1990, passou a adotar uma prática diferente, atuando pelas regras do jogo, em um acordo indireto com Israel, conforme explica Augustus Richard Norton, professor da Universidade de Boston e autor de livros sobre o Hezbollah. Dentro destas regras, o Hezbollah não atuaria fora da “zona de segurança” do sul do Líbano. Este acordo foi estabelecido em 1993 – um antes da AMIA. Todos analistas concordam que este atentado, se cometido pelo Hezbollah, seria o único, em 20 anos (eliminando-se, portanto, a TWA) que não se encaixa na estratégia do grupo.

E, agora, voltamos para o atentado em 1994 em Buenos Aires. Duas perguntas precisam ser respondidas inicialmente

1)Por que 1994?
Este foi um ano calmo nas disputas entre o Hezbollah e Israel. Diferente de 1993, quando 140 pessoas morreram e que levou, literalmente, à implementação das regras do jogo, respeitadas pela organização e por Israel até 2000. O atentado em Buenos Aires, um ano depois, seria um desrespeito por parte do Hezbollah destas regras e teria como meta justamente se vingar das mortes dos libaneses.

Por outro lado, o ataque contra a Embaixada ocorreu em 1992, dois meses depois de Israel matar o secretário-geral do Hezbollah, Sayyed Abbas al-Moussawi. A ação anterior, portanto, seria uma vingança pela morte dele. O difícil seria, porém, organizar um ataque desta magnitude em 60 dias. Possível, especialmente com Imad Mugnyieh, mas bem complicado.

2)Por que Buenos Aires?
Convenhamos, seria mais óbvio atacar Tel Aviv ou Nova York. Na época, não era difícil realizar um atentado de grandes proporções em Israel. O Hamas, bem mais fraco do o Hezbollah, conseguiu fazer enormes estragos. O grupo xiita libanês tinha a capacidade de matar centenas de israelenses explodindo um shopping, por exemplo.

Zeev Shiff, o já falecido analista militar do Haaretz, argumentava que o Irã escolheu o alvo. Não o Hezbollah. E o motivo seria a deterioração das relações entre iranianos e argentinos. Porém esta explicação é extremamente fraca. A Argentina nunca teve relações importantes com o Irã. A agenda política e econômica dos dois países é distante. Para que se vingar?

A segunda, e um pouco mais realista explicação, seria a proximidade de Buenos Aires da Tríplice Fronteira, somada à elevada população judaica da capital argentina e o grande número de neonazistas que poderiam contribuir com a operação

Por hoje, ficamos por aqui, porque o tema AMIA prosseguirá nos próximos posts, com a análise do Irã. Posteriormente teremos os neonazistas argentinos e, finalmente, o regime sírio – sempre suspeito nos meios diplomáticos, conforme vocês entenderão ao longo da próxima semana

Espero que todos acompanhem a série

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