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Análises em tempo real – A Multidão contra Mubarak

gustavochacra

10 de fevereiro de 2011 | 14h32

Acompanhe análises em tempo real sobre os acontecimentos no Egito e a possível queda de Mubarak hoje. No Twitter @gugachacra

MUBARAK NÃO TEM MAIS PODERES

As opções das Forças Armadas nas próximas horas
As Forças Armadas têm três opções, segundo a agência de risco político Stratfor 1) permitir que os manifestantes se dirijam ao palácio presidencial e até mesmo que o invadam. 2) Conter os manifestantes na região da praça Tahrir, no centro 3) Levar adiante um golpe para remover formalmente Mubarak, que na prática repassou seus poderes para Suleiman. O problema é que a população não aceitou

Na opção 1, há o risco de as Forças Armadas perderem o controle e os manifestantes tentarem inclusive impedir que o Exército assuma o poder, levando o Egito ao caos. Na 2, o Exército precisaria ser obrigado a atirar contra os manifestantes. Sobra a 3, vista como provável. A decisão, segundo a Stratfor, precisa ser tomada nas próximas horas, antes que amanheça a sexta  

Afinal, quem está no poder?
Omar Suleiman assumiu os poderes no Egito. Apenas não pode, por lei, realizar emendas constitucionais, dissolver o Parlamento e demitir o gabinete. Até as Forças Armadas estão sob o seu comando. As informações são do Ministério das Relações Exteriores do Egito e foram passadas pelo embaixador em Washington. Aparentemente, tudo foi acordado com os EUA. A confusão ocorreu porque Hosni Mubarak não foi claro em seu discurso. Ele disse apenas que “transferia poderes” para Suleiman, mas não disse quais. A partir de agora, ele é uma espécie de rainha da Inglaterra.

Se renunciasse, Mubarak teria que passar o poder para o presidente do Parlamento, e não para o vice, pela Constituição. Da forma como está, haveria eleição presidencial em setembro e o futuro presidente dissolveria o Parlamento. Mas, para entender direito, apenas estudando direito constitucional egípcio.

Embaixador diz que Mubarak transferiu todos os poderes para Suleiman
O embaixador do Egito nos EUA, Sameh Shoukry, explicou agora que Mubarak não mantém mais os poderes presidenciais. Até as Forças Armadas estão sob o comando de Omar Suleiman. “Por lei, o chefe de Estado é Hosni Mubarak. Mas o chefe de Estado de facto é Omar Suleiman”, disse agora na CNN o diplomata egípcio. Isso altera todo o cenário.  

19h55- O que deve ter acontecido hoje no Egito
O regime perdeu completamente o contato com a realidade ao dizer bobagens como a existência de intervenção estrangeira e o perigo dos canais por satélite. Uma estratégia de ditaduras como no Irã e em Cuba, onde esta desculpa até emplaca devido às sanções internacionais. Já o Egito sempre foi aliado dos EUA.  

Além disso, na avaliação do regime, o cenário havia se acalmado ontem e hoje. O Egito deixou de ser manchete até no New York Times. Aproveitando esta calmaria, o regime decidiu que havia chegado o momento de Mubarak transferir alguns de seus poderes para o vice Omar Suleiman, que acabou de discursar. Se demorasse mais, a economia começaria a sofrer.

O problema é que ao longo do dia surgiram rumores de que Mubarak iria renunciar, e não apenas transferir parte de seus poderes. E a população se empolgou. Para complicar, o líder egípcio demorou para discursar. Quando falou, todos esperavam a renúncia. Mas ele insistiu que permaneceria no cargo ao falar na TV. Agora, a multidão está frustrada e revoltada. Omar Suleiman, com seu discurso em seguida, praticamente eliminou suas chances de ser um líder isento no processo de transição

19h30 – Análise da “não-renúncia” de Mubarak (haverá violência)

Hosni Mubarak deixou claro que não abandonará o seu cargo. Até concordou em transferir alguns poderes para Omar Suleiman, seu vice e aliado. Mas não largará a Presidência. Ao mesmo tempo, a multidão de centenas de milhares de pessoas nas ruas do Cairo não aceita mais a permanência dele no poder. Eles não irão desistir e amanhã é sexta  no Egito, que equivale ao nosso domingo. Milhões podem participar dos protestos contra o regime. O árbitro é o Exército. Hoje, no início do dia, os militares pareciam estar finalmente convencidos de que uma saída não humilhante para Mubarak seria a melhor alternativa. Não funcionou. Certamente há um racha nas Forças Armadas.

Com a multidão e Mubarak em lados antagônicos e um Exército incapaz de tomar uma decisão firme, o cenário pode se radicalizar e muito nesta noite e amanhã. Talvez, a chance de Mubarak renunciar de uma forma honrosa acabou nesta noite. Mais grave, o Egito depende do turismo, que está paralisado nas últimas semanas. A economia também deixou de operar normalmente.

E não adianta os manifestantes tentarem ir até o palácio presidencial, que fica distante da praça Tahrir. Provavelmente, o líder egípcio está no balneário de Sharm el Sheikh, onde tem passado a maior parte do seu tempo nos últimos anos.

APESAR DAS PRESSÕES, MUBARAK NÃO RENUNCIA

Assim que ele acabar o discurso, mais comentários

17h30 – Se Mubarak não renunciar, haverá violência
O líder egípcio segue adiando seu discurso nesta noite. Se ele não renunciar, o cenário tende a se deteriorar devido à enorme ansiedade nas ruas do Cairo, Alexandria e Suez. São centenas de milhares de pessoas na praca Tahrir. Além disso, o racha no regime é irreversível. Membros das Forças Armadas acham que Mubarak tem de sair e já. Se ele discordar, pode ser forçado ou provocar um conflito. Os EUA tampouco toleram Mubarak neste momento. Ele se tranformou em um peso. Agora, que fique claro, Mubarak não é Kaddafi, Fidel ou Pinochet. Existe o risco de ele cair e o regime seguir. Eu me aprofundarei mais tarde neste tema.

16h45 – Obama adota discurso de revolução dos jovens no Egito
Em discurso transmitido ao vivo agora na TV estatal egípcia, Obama afirmou que continua  “seguindo os eventos no Egito. Estamos vendo a história. O povo do Egito quer mudanças. São os jovens mo comando. Vamos apoiar uma transição ordenada para a democracia”. A Casa Branca tenta evitar mencionar as palavras Exército e Irmandade. E nada de o Mubarak falar por enquanto

16h – Dúvidas ainda sobre a renúncia e regime rachado
O discurso de Mubarak será ao vivo. O ministro da Informação disse que ele não sairá. Outros confirmam que haverá renúncia. Aparentemente, há um racha no regime. Mubarak e alguns aliados talvez estejam relutantes em sair. Vamos aguardar. Se ele não renunciar, deve haver violência na praça Tahrir e esta seria uma das noites mais violentas

15h30 – Perguntas ainda não respondidas

Mais importante do que o discurso de Mubarak daqui a pouco, será a posição a ser tomada pelas Forças Armadas assim que assumirem o poder. As perguntas são – 1) o Parlamento será dissolvido? 2) Haverá uma nova Constituição ou apenas reformas? 3) quando seriam as eleições presidenciais? 4) as Forças Armadas terão candidatos? 5) A Irmandade Muçulmana poderá participar do processo político?

14h45 – Uma cúpula militar assumiria o poder

Agora falam que, se Hosni Mubarak realmente cair hoje, uma cúpula militar, e não necessariamente Suleiman, assumiria o comando no Egito. Seria uma tentativa de eliminar qualquer ligação com o regime anterior de Mubarak. Chefe da inteligência e recém nomeado vice-presidente, Suleiman tem sua imagem ligada à de Mubarak, apesar de ser mais respeitado. Já o Exército desfruta de enorme popularidade entre a população.

Não deixa de ser irônica a situação, pois o regime egípcio nasceu do Exército, mas se desenvolveu a partir de um partido. Agora, as Forças Armadas retomariam as rédeas. Não se sabe até quando

14h30 -Mubarak não sairia humilhado como Ben Ali

Volto agora com o blog em tempo real. Hosni Mubarak pode a qualquer momento ser removido de seu cargo. Em seu lugar, por lei, deveria entrar o presidente do Parlamento. Mas provavelmente o vice-presidente, recém nomeado, e chefe de Inteligência, Omar Suleiman, assumiria o cargo. Na prática, ele já está no comando da transição. Mubarak ainda não caiu por questões de lealdade e constitucionais.

Doente e vivendo em Sharm el Sheikh, Mubarak passou por tratamentos na Alemanha e sua saída talvez não seja humilhante como a de Ben Ali. Ele permaneceria no Egito no balneário do mar Vermelho ou iria para a Europa se tratar. O argumento poderia ser “questões de saúde”, apesar de todos saberem que sua permanência no cargo se tornou insustentável.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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