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Andrei Netto, correspondente em Paris e prisioneiro de Kadafi, fala com o blog

gustavochacra

19 de janeiro de 2013 | 14h12

O Andrei Netto é o correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Paris. Um cargo que por décadas pertenceu a Reali Júnior. Mas este gaúcho assumiu o posto anos atrás e constrói uma das mais belas carreiras do jornalismo impresso.

Além de cobrir os acontecimentos envolvendo o Palácio do Eliseu, a crise europeia e ter concluído o seu doutorado, o Andrei passou a cobrir também a Primavera Árabe. Em 2011, viajou para a Líbia e acabou sendo detido pelas forças do antigo regime líbio. Uma história marcante que está retratada no livro “O Silêncio Contra Muamar Kadafi – A Revolução Da Líbia Pelo Repórter Brasileiro Que Esteve Nos Calabouços do Regime”, editado pela Cia. das Letras. E, como bom gaúcho e tendo de pagar impostos para o François Hollande (se com o Obama não é fácil, imaginem com o líder francês…), não me deu um exemplar de presente quando veio a NY e disse para eu comprar na livraria. Mas só compro e-book no kindle e apenas agora ele me informou que posso conseguir nos sites de livrarias brasileiras. Vou baixar. Façam o mesmo 

Abaixo, leiam a conversa que ele teve comigo, via e-mail. Somos colegas de trabalho que raramente nos vemos, obviamente, pois sou correspondente aqui em Nova York e ele vive na Europa. 

Você prefere cobrir a Crise Europeia ou a Primavera Árabe?

Eu diria que cobrir o dia a dia da crise europeia é muito desgastante, Guga. Imagine explicar para o leitor por que o spread da dívida soberana da França cresceu em relação ao da Alemanha em um dia, e no dia seguinte ter de explicar por que ele caiu. É uma crise muito dinâmica e muito movida pela especulação. Gosto quando consigo sair das discussões macroeconômicas e fazer reportagens especiais nos países em crise, na Grécia, na Espanha, Portugal, Itália, França em alguma medida. Aí o leitor se reconhece, percebe os efeitos da turbulência econômica na vida real, no cotidiano dos milhares de cidadãos comuns que estão sendo rebaixados de classe social. A contradição em relação ao que se passa nas classes mais abastadas, que, grosso modo, não foram atingidas aqui na Europa, também é chocante. Mas, para resumir e ser bem sincero, prefiro cobrir a Primavera Árabe. Nela não há alternativa: é preciso cobrir no “corpo a corpo”. Não há como se limitar às reportagens sobre discussões entre líderes políticos. É preciso colocar a mão na massa, se juntar à população e ouvir seus anseios para entender porque os levantes estão acontecendo. Além disso, há toda a questão do extremismo islâmico que aflora e que precisa ser compreendido e relatado.

Muitos diziam em 2012 que Assad cairia e a Grécia sairia da zona do Euro. Mas erraram. Em 2013, na sua opinião, qual a chance de os gregos abandonarem o euro e o líder sírio deixar o poder?

Busque os primeiros textos do meu blog, quando ele recém tinha sido criado, e você verá que eu nunca acreditei que a Grécia deixaria a zona do euro, nem que a zona do euro ou a União Europeia explodiriam. Fui muito otimista ao dizer que não acreditava nem mesmo na falência da Grécia. Ela não aconteceu tecnicamente falando, mas ela aconteceu na prática. Mas, voltando, eu não acreditava e não acredito que a Grécia deixará o euro. A União Europeia é um projeto político, mais do que econômico. In extremis, ela sempre será salva, porque os europeus – embora critiquem Bruxelas o tempo todo – têm noção de sua importância. Já Assad cairá em 2013. Essa é a minha convicção. Não sou muito original nisso, porque muitos experts e diplomatas com quem tenho conversado têm a mesma impressão. No campo de batalha, no interior da Síria, as opiniões dos chefes de guerra rebeldes são menos otimistas. Eles acreditam em uma guerra longa, que ainda durará pelo menos alguns meses. Acho que eles são os mais realistas. 

 

Vc cresceu em Porto Alegre, trabalha para um jornal de SP e fez carreira acadêmica e profissional em Paris. Alguma vez imaginou que a Líbia fosse ser o tema de um livro seu e marcar, até agora, a sua carreira?

Não, não imaginava que meu primeiro livro fosse ser sobre a Líbia. É dessas voltas que nossos mundos dão. Mas nossas carreiras estão em construção. Espero que a Líbia se torne um episódio importante, mas não o mais importante. Quero que esse assunto se dilua no futuro entre outros livros e outros temas que virão. O extremismo no Maghreb, por exemplo, poderia ser um deles.

 

Como vc sabe, tenho origem libanesa cristã. Como é, para alguém com a sua formação, ver o sectarismo em países como a Síria e o Líbano? Como vc explica para quem nunca esteve lá e não tem origem no Levante?

 Descobrir a importância dos sectarismos na região, Guga, foi um choque para mim. Foi só então que compreendi de fato a profundidade dos traumas e dos atritos no mundo árabe-muçulmano. Me parece incrível cada vez que constato que discussões cotidianas, às vezes banais, acabam deturpadas e conduzidas para o campo do sectarismo religioso. Esse é realmente um tema difícil de explicar, porque é preciso senti-lo. No interior da Síria, ouvi alguns combatentes evocarem conflitos dos séculos 16, 17, 18, para explicar o que opunha sunitas e alauitas. Essa disputa é só uma das que estão em jogo na Síria, e a Síria só um dos países em que essas disputas acontecem. Me parece claro que o sectarismo é uma das grandes origens da instabilidade política regional. É claro que a ele se juntam outros fatores, talvez até mais profundos, como a relação entre Israel e Palestina, um componente desestabilizador em toda a região, e não só entre os dois lados em conflito.  

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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