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Apenas a religião não explica o conflito no Egito

gustavochacra

12 de julho de 2013 | 10h58

Meu comentário sobre a Síria no Jornal das Dez da Globo News

O Oriente Médio não vive uma luta de sunitas contra xiitas ou de religiosos contra seculares. Hoje, por exemplo, vou me focar no caso do Egito, já que abordei esta questão envolvendo a Síria no passado.

Primeiro, precisamos lembrar que no Egito praticamente inexistem xiitas. São 90% de muçulmanos sunitas, com diferentes graus de religiosidade, e 10% de cristãos, majoritariamente coptas. Atualmente, os egípcios se dividem em quatro principais grupos políticos que não seguem estas linhas sectárias, diferentemente do Líbano ou do Iraque – as Forças Armadas, os liberais, os salafistas e a Irmandade Muçulmana. A deposição de Mohammad Morsy contou com a mobilização dos três primeiros grupos, o que inclui, portanto, os ultra-religiosos salafistas e membros da elite secular.

Além disso, no campo externo, também existem dois blocos de países no mundo sunita que se dividem em relação aos recentes acontecimentos no Egito. A Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes (todos religiosos) apoiaram a deposição, darão US$ 12 bilhões em ajuda financeira e são aliados dos militares (seculares). Já a Turquia, Tunísia (mais moderados) e Qatar foram contra e são mais próximos da Irmandade (religiosos).

Não preciso nem me aprofundar para as pessoas entenderem que o regime travestido de monarquia saudita é infinitamente mais religioso do que o governo turco e, ainda assim, está ao lado dos supostos seculares. E Ancara, por sua vez, defende a Irmandade.

E não venham me dizer que o governo de Recep Tayyp Erdogan seja radical islâmico. Sem dúvida, para padrões da Turquia, ele é conservador. Mas, na Arábia Saudita, seria talvez o líder político mais liberal de toda a história.

Portanto, insisto, as crises no Oriente Médio são motivadas por interesses de cada um dos países, que atuam de forma realista. A Arábia Saudita, por exemplo, tem medo do islamismo político, pois este pode servir de alternativa ao regime dos Saud, por exemplo. O mesmo se aplica aos Emirados Árabes. A questão para eles não é secular versus religião.

Apenas para esclarecer

 Arábia Saudita, Emirados e Kuwait (RELIGIOSOS) = Forças Armadas do Egito (SECULARES)

 Turquia e Tunísia (MODERADOS) = Irmandade Muçulmana (RELIGIOSA)

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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