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Árabes aprenderam a fazer relações públicas e hoje superam os israelenses

gustavochacra

11 de janeiro de 2009 | 09h10

Os árabes – cristãos e muçulmanos – aprenderam a disputar a guerra das relações públicas contra os israelenses e defensores de Israel. A “hasbara” não é mais tão simples como antes. Israel comete muitos erros e os árabes, aos poucos, começam a acertar. A mídia internacional, ao contrário do que dizem, não é controlada por israelenses e tampouco é pró-Israel. Pelo contrário, no atual conflito, Israel perde feio dos árabes na hora de conquistar a opinião pública.

Primeiro, vamos aos erros de Israel. 1) Israel não permite que jornalistas entrem na Faixa de Gaza e façam uma investigação independente do que vem ocorrendo na ofensiva. Dessa forma, todas as informações partem de dentro do território palestino. Muitas das fontes têm um lado claro no conflito, que nem sempre é a favor do Hamas, mas sim contra Israel. Além disso, a medida israelense irrita a imprensa estrangeira, como fica claro na cobertura da CNN. 2) Israel não desenvolveu uma mídia internacional capaz de confrontar a árabe. O diário “Haaretz”, o mais lido por estrangeiros que querem informações sobre Israel, é considerado de esquerda no espectro político israelense, sendo muitas vezes visto como “anti-Israel” por conservadores locais. 3) Israel não consegue mais exercer a influência que possuía anos atrás nos meios acadêmicos americanos e europeus, com redução no número de professores pró-Israel. 4) Por mais que tenha tentado, Israel fracassou em mostrar ao mundo o que acontecia em Sderot e outras cidades do sul do país. 5) Israel passou a ser associado ao governo de George W. Bush, um dos mais odiados em todo o mundo (incluindo Europa, Ásia e América Latina) em toda a história. 6) Ficou inteiramente dependente dos americanos no campo diplomático, ignorando os outros países. Deixou de ter uma estratégia. 7) Os israelenses se focam muito na atração de judeus para conhecer o país, mas são fracos ao convencer pessoas de outras religiões a viver e estudar em Israel.

Agora, vamos aos acertos dos árabes. 1) Desenvolveram órgãos de imprensa como a rede de TV Al Jazeera, que supera em muitos casos a cobertura de canais europeus e americanos. Seus jornalistas são das mais variadas origens. Possui equipe em Gaza. Mostra lados do conflito que jamais uma rede de TV ocidental exibiu. Seus repórteres têm PhDs nas melhores universidades americanas e, pasmem, com o perfil “Wasp” dos da Fox News. Além de outros craques que fizeram sucesso na CNN, como o iemenita Riz Khan. 2) Os árabes abrem suas portas para a cobertura e fazem de tudo para exibir o seu lado da notícia. Colocam porta-vozes com inglês impecável para dar entrevistas. 3) Os árabes nos EUA tem assumido elevados postos na academia e no jornalismo. Apenas como curiosidade, por erro de Israel, quem assina as matérias da capa do New York Times todos os dias é uma palestina que vive em Gaza e não a correspondente de Jerusalém. Sem falar em Hassan Fatah, que foi correspondente em Beirute, e o premiado Anthony Shadid, do “Washington Post” no Iraque por muitos anos. Esses são alguns dos vários exemplos. 4) Os árabes se desenvolveram na diplomacia. Sabem agir. Observem como eles articularam melhor do que Israel a aprovação da resolução 1860 no Conselho de Segurança da ONU. Ou como a Arábia Saudita publicou em jornais israelenses a proposta árabe de paz com Israel. 5) Jovens americanos e europeus viajam para os países árabes para estudar a língua. Isso já acontece há uns 15, 20 anos e se intensificou. Eles retornam a seus países com uma imagem diferente dos árabes. Descobrem que não são fanáticos. Na verdade, são bem parecidos com eles. Descobrem que em Beirute, na Universidade Americana, o clima é mais livre do que em muitos campi dos EUA. Alguns poucos que estiveram no Líbano e em Israel, sabem que Beirute é uma cidade mais cosmopolita e liberal do que Jerusalém e no mínimo tanto quanto Tel Aviv. Sem falar que há Gerogetown, NYU, Cornell e outras universidades com filiais no golfo. 6) Os árabes sabem usar melhor as novas tecnologias como o Youtube. A Al Jazeera e a rainha Rania, da Jordânia, se tornaram hits na internet. 7) Dubai virou o símbolo de modernidade mundial. Árabes podem ter derrubado o World Trade Center, mas há pelo menos três edifícios maiores em países do golfo, uma região que virou um dos centros do capitalismo mundial. Dubai, por mais cafona e deslumbrada que seja, virou uma marca árabe de sucesso. Os americanos fazem conexão por ali para a Ásia e se assombram com um aeroporto bem mais moderno do que os de Chicago e Atlanta e sem a menor possibilidade de comparação com o bem mais atrasado Ben Gurion em Tel Aviv

Essa tendência deve aumentar nos próximos anos. Em breve, como escreveu certa vez um colunista judeu americano, será impossível para seus filhos e netos defenderem Israel nas universidades americanas. O holocausto não está na memória coletiva de muitos jovens europeus e americanos. Eles não puderam conhecer o sofrimento judaico. Nasceram após 1967, quando Israel já era uma potência regional.

A derrota nas relações públicas é a mais grave para Israel. Os árabes aprenderam a usar a “hasbara”. Não estamos mais nos tempos de Yasser Arafat.

Obs. Fui almoçar na rodoviária de Jerusalém e li um artigo no Jerusalem Post com o título de ‘Hasbara’ lessons I learned from Al Jazeera, que acrescenta mais um pontos ao que acabei de escrever. Dá uma idéia boa de como os próprios israelenses já perceberam como o outro lado sabe usar a ‘hasbara”.

Nota Importante de uma amiga minha (já corrigi a informação acima)

A Taghreed El-Khodary, correspondente do NYT em Gaza, não é homem e menos ainda uma foca. Ela trabalha para o NYT há pelo menos seis anos. A Taghreed, que deve ter uns 35 anos, foi bolsista na Fundação Nieman em Harvard em 2005-2006 (e ganhou a bolsa porque já trabalhava para o NYT) . Ela é uma palestina secular, que estudou na Universidade Americana do Cairo e morou nos Estados Unidos na juventude num daqueles programas de intercâmbio para adolescentes.

A família dela não é refugiada, é uma família tradicional de Gaza, que vive lá desde o Império Otomano. Ela é respeitada inclusive em Israel. Na Universidade Hebraica de Jerusalém, todos os acadêmicos da área a conhecem.

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