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Se o leitor fosse o Obama, qual corrente de política externa iria seguir?

gustavochacra

28 de janeiro de 2010 | 14h31

O presidente dos EUA, Barack Obama, no seu discurso do State of the Union, ontem, em Washington, praticamente não tocou em política externa, preferindo se concentrar em temas domésticos, como a crise econômica e reforma do sistema de saúde. Ao falar do resto do mundo, insistiu no fim da guerra do Iraque, do início do retorno das tropas do Afeganistão a partir de julho de 2011, citou o Irã e a Coréia do Norte em uma frase e se comprometeu em reduzir o arsenal nuclear em acordo com a Rússia.

Basicamente, para Obama, o que interessa é desvincular os EUA do restante do mundo, preocupando-se mais com as questões internas dos americanos. Em recente artigo na capa da revista Foreign Policy, o cientista político Walter Russell Mead explicou que o atual presidente segue a corrente jeffersoniana de política externa, uma das quatro existentes nos EUA.

Os jeffersonianos priorizam a política doméstica dos EUA. Não acham obrigatório os EUA transformarem o mundo. Para eles, o que se passa no Iraque é problema dos iraquianos. Os americanos devem evitar se envolver em assuntos que não estejam diretamente ligados a eles. Notem que o atual presidente quer os EUA fora de todos os conflitos no mundo. Quase sempre os jeffersonianos são do Partido Democrata.

Ao mesmo tempo, segundo Mead, Obama tem um pouco dos wilsonianos. Estes acreditam que os EUA devam defender os valores universais como os direitos humanos e a democracia ao redor do globo. Apoiam intervenções como a de Kosovo ou em lugares como Darfur, onde não existem interesses americanos envolvidos. O objetivo dos wilsonianos é propagar o que há de melhor dos EUA no mundo. Obama teve seu caráter wilsoniano ao tentar se aproximar dos muçulmanos. Há wilsonianos tanto no Partido Democrata como no Republicano. Por mais irônico que possa parecer, os neo-conservadores, ao buscarem estabelecer a democracia no Iraque, foram wilsonianos.

O terceiro grupo é dos hamiltonianos. São os realistas, como George Bush (o pai) e Henry Kissinger. Estes defendem os interesses, e não os valores americanos. Não acham que os americanos sejam capazes de transformar o mundo. Portanto, o importante é manter os valores internamente e lutar para que os EUA conquistem novos mercados e parceiros no exterior, independentemente de alianças com regimes como o da China ou o da Arábia Saudita. Sabem ser muito difícil transformar estes países em democracias como a Suécia ou o Canadá e, mais do que isso, sequer acham que esta seja uma obrigação dos americanos. Também há democratas hamiltonianos.

Os jacksonianos são o último grupo. Acreditam que os EUA não devam se envolver com o que ocorre no exterior, como os jeffersonianos. Mas acabam se posicionando à direita. E, quando os EUA forem provocados ou mesmo ameaçados, acham que não existe necessidade de perder tempo com diplomacia e as forças americanas devem ser utilizadas. Não vão lutar para defender os valores americanos, como os wilsonianos, ou os interesses, como os hamiltonianos. Pretendem lutar pelos EUA contra países ou grupos inimigos. Algumas vezes, depois de ataques, como em Pearl Harbor ou no 11 de Setembro. Outras, preventivamente, como no caso do Iraque e, agora, do Irã.

Apenas para exemplificar nos últimos governos.
1) Carter = jeffersoniano + wilsoniano
2) Reagan = hamiltoniano + jacksoniano
3) Bush (o pai) = hamiltoniano
4) Clinton = hamiltoniano + wilsoniano
5) Bush (o filho) = wilsoniano + jacksoniano
6) Obama = jeffersoniano + wilsoniano

Logo, Obama estaria mais próximo de Carter do que de qualquer outro presidente recente

Pergunto aos leitores, qual linha vocês seguiriam se fossem presidente dos EUA? E do Brasil? Eu seria hamiltoniano nos dois casos. Como deixei claro aqui, considero o Bush (pai) o melhor presidente americano em política externa das últimas décadas

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