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As conflituosas identidades nacionalistas, religiosas e étnicas no Oriente Médio

gustavochacra

20 de dezembro de 2008 | 13h28

A identidade no Oriente Médio envolve nacionalidade, etnia e religião. Em alguns casos, a denominação da nacionalidade e da etnia é a mesma.

A nacionalidade pode ser egípcia, síria, israelense, palestina, libanesa, iraniana, iraquiana, marroquina, turca, curda, iraniana e saudita por exemplo. A etnia pode ser turca, árabe, persa e curda. A religião pode ser judaica, cristã e islâmica. Dentro delas, há subdivisões, como maronitas, assírios, melquitas e ortodoxos para o cristianismo, sunitas, xiitas e alauítas para islamismo.

Os conflitos na região envolvem estas identidades, como é o caso da disputa israelo-palestina. Os palestinos são os árabes não-israelenses que são descendentes ou nasceram no que hoje é Israel, Cisjordânia e faixa de Gaza. Eles podem ser cristãos (em geral ortodoxos), muçulmanos (quase todos sunitas) e drusos. Logo, ser palestino implica ser etnicamente árabe, mas não necessariamente muçulmano. Muitos líderes palestinos são cristãos.

Os israelenses são judeus em sua maioria, mas podem ser também muçulmanos, drusos e cristãos, além de outras minorias. A etnia é variada, pois há judeus oriundos de diversas regiões do mundo que imigraram para Israel. Inclusive alguns nativos da Terra Santa, que são tão árabes como qualquer palestino. O judaismo é uma religião, não uma etnia, assim como o cristianismo e o islamismo. Ser israelense não implica pertencer a uma etnia ou a uma religião. O conflito entre os dois lados envolve as três identidades, mas acima de tudo a nacionalista. Dizer que palestinos ou israelenses lutam por questões religiosas apenas é um erro.

No Iraque, dizemos muitas vezes que o conflito envolve sunitas, xiitas e curdos. Na verdade, o correto seria afirmar árabes-sunitas, árabes-xiitas e curdos-sunitas. Afinal, os curdos compartilham do mesmo ramo do islamismo de Saddam Hussein e da Al Qaeda. A diferença é que Saddam era árabe e eles, etnicamente, curdos. Há ainda um complicador. Os curdos se enxergam como uma nação distribuída entre a Turquia, Irã, Iraque e Síria. Portanto, além de etnia, curdo também é uma nacionalidade sem Estado, como os palestinos. Portanto, no Iraque, a disputa engloba religião, etnia e nacionalidade.

Já no Líbano, o conflito é sectário somente. A nacionalidade e a etnia são as mesmas. Todos são libaneses e árabes, apesar de alguns cristãos maronitas insistirem que são fenícios. A diferença entre os libaneses é religiosa. Um libanês pertende a um de 18 diferentes ramos religiosos. Vale, porém, uma observação – há, no Líbano, armênios (que não são árabes) e palestinos (que não são libaneses), mas eles não estão envolvidos diretamente no atual conflito.

Algumas destas identidades surgiram apenas no começo do século 20. Até a Primeira Guerra Mundial, toda esta região era parte do Império Otomano. Não existia Síria, Israel, Líbano ou Iraque. As divisões e unificações (caso do Iraque) posteriores acabaram por produzir este novo sentimento de identidade nacional, que é o israelense, palestino, jordaniano, sírio e libanês. Hoje, no Líbano, nenhum grupo religioso defende, por exemplo, a unificação com os sírios. Aliados e opositores de Damasco, membros da coalizão 14 de Março ou do Hezbollah, todos os libaneses sempre carregam a bandeira dos cedros em manifestações.

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