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Política libanesa se parece com filme “O Poderoso Chefão”

gustavochacra

04 de outubro de 2008 | 19h03

Sempre que penso nas alianças e disputas na política libanesas, me lembro do filme “O Poderoso Chefão”. Inimigos se tornam aliados, antigos amigos passam a se matar e, após inúmeras baixas, todos se sentam à mesa para definir a nova divisão do poder.

Atualmente, os libaneses estão na fase de acertar as suas diferenças. Porém há forças externas e internas que não fazem parte deste diálogo e que têm enorme possibilidade de provocar uma nova onda de violência.

Abaixo, seguem as facções existentes no Líbano.

Coalizão governista 14 de Março – Composta pela ampla maioria dos sunitas e conta com o premiê Fuad Siniora. Seu líder é Saad Hariri. Integram a aliança várias facções cristãs, com destaque para as Forças Libanesas, do radical Samir Gaegea. A maior parte dos drusos, sob o comando do líder feudal Walid Jumblat, também faz parte da coalizão. Não há xiitas. O apoio internacional é da França, Estados Unidos e países árabes, em especial a Arábia Saudita. O principal inimigo externo é a Síria.

Oposição, denominada 8 de Março – Quase todos os xiitas, representados pelo Hezbollah e Amal, integram esta aliança. Calcula-se que mais ou menos metade dos cristãos, sob a liderança do populista Michel Aoun, são opositores. Alguns drusos e poucos sunitas também estão neste barco. Os aliados externos são a Síria e o Irã. O principal inimigo é Israel e, em menor escala, a Arábia Saudita.

Agora, seguem algumas curiosidades.

1 – Hoje os sunitas são os principais inimigos da Síria. Porém, até bem pouco tempo, eles eram aliados. Rafik Hariri, o pai de Saad, tinha uma casa em Damasco e rompeu com o regime de Bashar al Assad apenas em 2004, após anos de amizade. Hoje, ele é aliado de Gaegea, a quem deixou na prisão por onze anos. O líder cristão que, na guerra civil, chegou a cercar e tentar matar o druso Jumblat, que senta sem problemas ao seu lado em vários atos no Líbano.

2 – Gaegea era aliado de Israel na guerra civil libanesa, enquanto os seus colegas de coalizão sunitas foram justamente os que permitiram que a OLP tivesse um Estado dentro do Estado no Líbano.

3 – Michel Aoun, o cristão aliado do Hezbollah, passou 15 anos no exílio porque era contra a influência síria no Líbano. Quando voltou ao país, em 2005, graças à saída das tropas de Damasco, ele se aliou justamente ao grupo ligado ao regime de Assad.

4 – A Amal e o Hezbollah, que hoje são amigos, já travaram várias batalhas entre eles no passado. Aliás, os xiitas, que hoje adoram defender os palestinos, já combateram bastante grupos ligados à OLP no passado.

Portanto, não se assustem se, em breve, todas essas alianças se transformarem completamente. Por exemplo, o Hezbollah e os sunitas ensaiam uma aproximação. Os cristãos, que são ultra divididos, iniciaram um diálogo para superar as diferenças. Por outro lado, a Al Qaeda está presente no Líbano e é um novo fator. Para completar – e isso talvez seja o mais importante –, a Síria não tem mais a mesma relação com o Hezbollah. Sírios que, aliás, vem tendo negociações indiretas com Israel, o outro vizinho dos libaneses.

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