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Assad perdeu apoio por fracasso no combate à oposição, não pela repressão

gustavochacra

07 de agosto de 2012 | 10h57

O regime de Bashar al Assad, como se fosse uma organização mafiosa, conseguiu manter o poder e a estabilidade por quatro décadas porque uma série de pessoas e grupos eram beneficiados. Os militares, membros do Partido Baath e do círculo empresarial de Aleppo e Damasco eram e, de certa forma, ainda são literalmente o regime.

O brand “Assad” era o equivalente de “Corleone” do Poderoso Chefão. Abaixo dele, vinham os capos, os conselheiros e todo o esquema para manter a Síria controlada por estes grupos por meio de corrupção e da força. Militares, políticos e empresários viviam bem. O restante da população, não se compararmos com padrões europeus ou mesmo da América do Sul. Não têm liberdade e enfrentam um atraso econômico de uma economia estatal. Mas, por outro lado, achavam a alternativa – viver em um caos como o libanês dos anos 1980 ou o iraquiano de agora, pior.

O problema é que, no último mês, os conflitos restritos ao interior chegaram a Damasco e Aleppo. Assad, o Mike Corleone do momento, se mostrou incapaz de manter a ordem. Como na Máfia, se tornou inútil. Começaram as traições, como no atentado que matou sua cúpula de segurança. As deserções no alto escalão, antes raras, se intensificaram.

Primeiro, foi o general Manaf Tlass. Cosmopolita e bem relacionado na Europa, percebeu que ganharia mais pulando fora. Depois teve o embaixador sírio no Iraque. Agora, até o premiê Riyyad Farid Hijab. No Filme Poderoso Chefão, ele seria um daqueles “bananas” que ninguém leva a sério. Assad o colocou no cargo por ser inofensivo e pelos bons serviços prestados nos massacres de opositores.

Agora, estes militares, diplomatas e políticos, que até dois meses atrás adoravam ver o sangue dos rebeldes e dos manifestantes anti-Assad em Homs, Hama, Daara e Idlib, desertam e se livram de perseguições. Outros farão o mesmo. A imunidade é uma estratégia dos EUA e de seus aliados europeus para isolar internamente o regime.

Os americanos, na Síria, conforme deixou claro o secretário da Defesa, Leon Panetta, querem o Exército intacto. Também querem a manutenção da burocracia. Os EUA não pretendem repetir os erros do Iraque, quando desmantelaram todo o Estado. Todos serão bem vindos, desde que não tenham o “brand” Assad associado aos seus nomes.

O líder sírio, por sua vez, insiste em permanecer no poder. Provavelmente, deve apostar na possibilidade de manter o controle da costa mediterrânea, onde sua popularidade é enorme devido à presença de alauítas e cristãos. Afinal, por mais que tenha Damasco nas mãos agora, será muito difícil manter no longo prazo.

Ironicamente, muitos antes simpatizantes do regime não dizem que Assad fracassou por ter reprimido a oposição. Na verdade, segundo eles, fracassou por não ter conseguido, como seu pai, Hafez, o “Vito Corleone”, conseguiu nos anos 1980.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

no twitter @gugachacra

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