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Ataturk transformou a Turquia em um país bem diferente do Império Otomano

gustavochacra

28 de fevereiro de 2009 | 19h36

Um cartaz gigantesco de Mustapha Kemal Ataturk decora o estádio Ismet Inuno – uma homenagem ao seu sucessor na Presidência da Turquia–, do Besiktas (Bechtach, em turco). Antes da partida, todos os torcedores se levantam e cantam unidos o hino do país, diante da imagem deste homem que é tido como o pai dos turcos. Pelo menos, dos turcos atuais. A Turquia como a vemos hoje pouco lembraria o Império Otomano. Em grande parte, graças às reformas adotadas por Ataturk, que chegou ao poder na década de 1920.

A mudança mais importante se deu na religião. O islamismo ainda é a crença da maioria da população turca, com minorias cristãs e judaicas. No entanto, durante todo o século passado, a Turquia passou por um processo de secularização que foi implementado inicialmente por Ataturk. Mulheres não podem cobrir a cabeça em prédios públicos ou universidades. Política e religião tampouco podem se misturar. No campo cultural, a escrita no alfabeto árabe, usada nos tempos otomanos, foi modificada para o alfabeto latino, com a incorporação de algumas letras, como o S com cedilha que tem o som de “ch”. O Exército ganhou força, conseguindo respeito interno e externo em uma nova Turquia, depois do fracasso das cambaleantes Forças Armadas Otomanas na Primeira Guerra. Hoje, é o segundo maior contingente da OTAN (aliança militar ocidental), depois dos Estados Unidos. A capital também foi transferida de Istambul para Ancara, no centro geográfico do país.

Outro fenômeno que se tornou uma bandeira de Ataturk, apesar de ter sido lançado pelos Jovens Turcos ainda durante o Império Otomano, foi “turcoização” (não sei se existe termo)da Turquia. Basicamente, o território que restou para a Turquia no pós-guerra deveria ser “turco”. Áreas cristãs etnicamente eslavas nos Bálcãs tinham sido perdidas ao longo do século 19. O mundo árabe foi dividido entre franceses e ingleses depois da derrota na Primeira Guerra. Os armênios já haviam sofrido o genocídio antes mesmo do colapso do império, por terem a “má sorte” de viver em áreas da Anatólia com expressivas populações etnicamente turcas. Os curdos se tornaram um povo sem território que até hoje luta pela soberania entre a Turquia, Iraque, Irã e Síria. Porém, no processo de “turcoização” do país, eles foram proibidos de falar a própria língua publicamente e de cultivar a sua cultura. Há poucos dias, o parlamentar Ahmet Turk, que apesar do nome é de origem curda, fez um discurso na sua língua nativa no Parlamento de Ancara e pode sofrer punições.

Ataturk conseguiu modernizar este país, que é uma espécie de Brasil do Oriente Médio, com uma economia bem mais poderosa do que os vizinhos, uma língua diferente e uma população maior. Assim como os brasileiros, os turcos são sempre lembrados para resolver conflitos, como recentemente na disputa entre diferentes facções no Líbano e na mediação da paz entre Israel e a Síria. O problema é que os turcos são, ao mesmo tempo, os mexicanos da Europa. Digo Mexicano sem ser pejorativo. Mas pelo fato de eles imigrarem para os Estados Unidos, sendo vistos muitas vezes como uma subclasse. A diferença é que o México conseguiu um acordo de livre comércio com os Estados Unidos e mexicanos conseguem a nacionalidade americana depois de alguns anos ou na primeira geração nascida no país. Os turcos, mesmo nascendo na Alemanha, muitas vezes não têm a cidadania. E lutam para ingressar na União Européia, até agora sen sucesso.

Israel quer demolir casas de palestinos em Jerusalém

Raed, um motorista e amigo meu que é palestino de Jerusalém – também conhecido como 67 –, mora em Silwan. Ele comentou comigo diversas vezes as dificuldades impostas pelas autoridades israelenses para dar permissões para a construção ou reformas de casas de árabes na área, que fica em Jerusalém Oriental. Não é segredo para ninguém que Israel tenta dificultar ao máximo a vida dos moradores palestinos da cidade. Agora, ameaça demolir 88 casas destes palestinos que estariam irregulares. A ironia é que Israel nada faz para remover assentamentos construídos pelo próprio governo, como Maaleh Adumim, que são ilegais, segundo as leis internacionais e acordos firmados pelos governos israelenses. O pai de Raed nasceu em Jerusalém Oriental em uma casa localizada no que hoje é a praça diante do Muro das Lamentações. Na época, ele foi obrigado por Israel a se retirar e transferido para uma outra área de Jerusalém. O filho não corre este risco por enquanto, pois a sua casa não está entre as 88.

Indiretamente, Obama admite que o surge deu certo

Não fosse o plano do general David Petraeus, conhecido como “surge”, implementado pelo ex-presidente George W. Bush, de incrementar o número de tropas americanas no fim de 2006 para conter a violência, provavelmente o Iraque estaria em guerra civil hoje. A estratégia, adotada simultaneamente com uma aliança com autoridades tribais sunitas e um acordo para cessar-fogo de milícias xiitas, reduziu o número de vítimas americanas e estrangeiras no conflito.

Agora, graças ao sucesso, Obama, que segue os conselhos de Petraeus e manteve o secretário da Defesa de Bush, Robert Gates, na direção do Pentágono, será mais fácil aplicar algumas das recomendações do “Iraq Study Group”, comandado por James Baker, ex-secretário de Estado durante a administração de Bush pai. Entre elas, conforme Obama disse em discurso ontem, está a incorporação do Irã e da Síria no processo de estabilização do Iraque.

Hamas não aceitará pressão do Fatah para reconhecer Israel

O governo de união nacional palestino talvez não saia do papel. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que lidera o Fatah, afirmou que, antes de formar a aliança, o Hamas precisa reconhecer a solução de “Dois Estados”, o que implica, indiretamente, no reconhecimento de Israel. A organização islâmica não aceitará a exigência e, consequentemente, os palestinos de Gaza devem ser os principais prejudicados.

Hezbollah faz ameaças a Israel por questões eleitorais

Naim Qassem, número 2 do Hezbollah, abaixo do xeque Hassan Nasrallah, disse em entrevista ao diário francês “Le Figaro” que sua organização está pronta para um conflito. Não duvido. Mas tampouco acredito que o grupo xiita entrará em confronto com Israel agora. Primeiro, porque o momento ideal já passou. Foi durante a guerra contra o Hamas em Gaza, quando seria bem mais complicado para Israel lutar em duas frentes. Em segundo lugar, porque o Hezbollah terá eleições em junho no Líbano, onde a coalizão da qual faz parte, comandada pelo líder cristão Michel Aoun, tem chances de vencer. Dificilmente a organização xiita teria, neste momento, coragem de bater de frente com o ex-general. Os cristãos têm direito a 50% das cadeiras no Parlamento em Beirute e é impossível chegar a qualquer lugar sem a ajuda deles.

Irã dá nome de rua a comandante militar do Hezbollah

Imad Mughnyieh, comandante militar do Hezbollah morto em atentado terrorista em Damasco há um ano, foi homenageado com o nome de uma rua em Teerã. Oficialmente, o grupo e o governo iraniano culpam Israel pelo assassinato. Mas, em Beirute, muitos acham improvável que uma figura como ele fosse morta na Síria sem pelo menos a ajuda de pessoas ligadas aos serviços de inteligência locais.

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