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Até que ponto o regime sírio controla as milícias pró-Assad acusadas pelos massacres?

gustavochacra

07 de junho de 2012 | 11h07

no twitter @gugachacra

O massacre de Houla e o de Hama, que aparentemente ocorreu ontem, teriam sido cometidos por milícias pró-Assad denominadas Shabiha. Em sua maioria, são formadas por alauítas e cristãos. Eles agem no interior do país, especialmente em regiões com muitas divisões sectárias. Grupos sunitas, da oposição, também estão alvejando minorias cristãs e alauítas.

O que não se sabe é até que ponto Bashar al Assad e suas forças controlam estas milícias. A maior parte age de forma independente, com interesses mais locais do que nacionais. Isso é normal em conflitos sectários como os vistos no Líbano nos anos 1980 e no Iraque mais recentemente.

Uma forma de comparação seria com o que aconteceu em Sabra e Chatila, em Beirute, em 1982. Naquela época, Israel ocupava a capital libanesa e cercava o campo de refugiados palestino. Em setembro, o recém eleito presidente libanês e aliado israelense, Bashir Gemayel, de 34 anos, foi morto em atentado atribuído a grupos palestinos (há quem suspeite também do regime de Hafez al Assad).

Para se vingar, milícias falangistas cristãs, composta por adolescentes e liderada por jovens na faixa dos 20 anos, como Elie Hobeika, entraram nos campos palestinos, em sua maioria muçulmanos sunitas, e massacraram seus habitantes em um dos episódios mais horrendos da história recente do Oriente Médio, matando vinte vezes mais civis do que em Houla.

Estas ações são sectárias e com um ódio exacerbado em momentos de instabilidade. Em situações normais, cristãos e alauítas não matariam sunitas em Hama, Homs ou Houla. Inclusive, até o ano passado, estas ações eram inexistentes na Síria.

Vale lembrar que as divisões entre alauítas e cristãos, a favor de Assad, e sunitas, contra o líder sírio, ocorrem apenas no interior da Síria. Na capital, Damasco, e em Aleppo, as elites costumam se posicionar ao lado do regime, mesmo quando são sunitas – vale lembrar que o vice-presidente e o premiê sírio são sunitas, não alauítas, como é o caso de Assad.

Apenas para ficar claro, os alauítas são um braço do islamismo ultra liberal, de caráter mais místico. Seus membros muitas vezes sequer jejuam no Ramadã e alguns muçulmanos os comparam aos cristãos. Os sunitas, por sua vez, são majoritários no islã. Muitos também são moderados, especialmente em Damasco, Aleppo e mesmo no Líbano. Outros, como os da Arábia Saudita, seguem vertentes radicais do sunismo, como o wahabismo. Dentro da Síria, alguns membros da oposição seriam da ala extremista dos sunitas, sendo chamados de salafistas. A Al Qaeda, o Hamas e o Taleban são sunitas.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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