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Como o Azerbaijão virou o melhor amigo de Israel na Guerra Fria contra o Irã

gustavochacra

06 de junho de 2012 | 08h58

no twitter @gugachacra

Hoje estarei mais uma vez no Globo News Em Pauta, às 20h de SP, para falar de Oriente Médio e Estados Unidos. No programa de ontem, comentei o apoio dos cristãos sírios e russos a Assad. Mais tarde, coloco o vídeo aqui

 

O Azerbaijão, com este nome que pode ser confundido com outras nações terminadas em “ão” no Cáucaso, é seguramente um dos países mais importantes geopoliticamente do mundo.

E é justamente na capital Baku que a  secretária de Estado americana, Hillary Clinton, desembarca hoje  para discutir não apenas o conflito envolvendo azeris e armênios no enclave de Nagorno Karabakh, como também o importante suporte do Azerbaijão a Israel na questão iraniana.

Isso mesmo, os azeris são hoje os melhores amigos dos israelenses na hora de enfrentar o que Israel considera ser a ameaça iraniana. Com a Turquia adotando um tom populista com Erdogan na hora de falar de seus antigos aliados em Jerusalém, com o Cairo passando por uma transição incerta e o rei Abdullah da Jordânia sob pressão de opositores, ninguém contribui mais no mundo islâmico com Benjamin Netanyahu do que seus aliados de Baku..

Nos últimos meses, os serviços de segurança do Azerbaijão prenderam 22 suspeitos ligados ao regime de Teerã que estariam planejando atentados contra alvos americanos e israelenses. Os azeris são também os maiores fornecedores de petróleo para Israel.

Israel também cumpre a sua parte. Em fevereiro deste ano,  vendeu US$ 1,6 bilhão em armas para as Forças Armadas azeris. Segundo artigo de  Ilya Bourtman no Middle East Journal, uma publicação acadêmica sobre Oriente Médio em Washington, os israelenses também “cuidam da segurança do aeroporto de Baku e do próprio presidente, Ilham Aliyev, ao exterior”. O líder do Azerbaijão está no poder desde 2003 e é alvo de protestos de entidades de direitos humanos.

Além disso, de acordo com relatos não confirmados por nenhuma das partes e tampouco pelos EUA, o Azerbaijão teria autorizado Israel a usar uma pista de pouso militar em seu território. Desta forma, os israelenses não teriam necessidade de sobrevoar longas distâncias sobre os céus de nações com as quais não mantém relações, como Arábia Saudita, Síria e Iraque, para alvejar as instalações nucleares iranianas.

Os EUA vêem com cautela esta possibilidade, segundo artigo publicado por Mark Perry na revista Foreign Policy. O governo de Barack Obama é contra um ataque israelense às instalações nucleares iranianas neste momento, preferindo esperar o resultado de duras sanções contra o setor petroleiro e o banco central iranianos que começam a entrar em vigor a partir de julho. Além disso, há o novo canal de negociações diplomáticas entre Teerã e o Sexteto, composto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, mais a Alemanha.

O regime de Teerã, por sua vez, acusa o serviço secreto do Azerbaijão de ter colaborado com os EUA e Israel para matar cientistas iranianos envolvidos com o programa nuclear do país que, segundo o Irã, tem fins civis. Americanos e israelenses dizem que o objetivo final é construir armamentos nucleares.

O Azerbaijão se sente ameaçado pelo Irã, com quem tem disputas territoriais no Mar Cáspio, uma fonte importante de petróleo. Além disso, há uma proeminente minoria azeri no norte iraniano. Nos EUA, existe pressão para vender armas a Baku, mas estas ações esbarram no forte lobby armênio em Washington.

A Armênia, com o apoio da Rússia, disputa com o Azerbaijão a região de Nagorno Karabakh, onde oito soldados foram mortos ontem, sendo cinco azeris e três armênios. Hillary pediu calma às duas partes

Joshua Kucera, colunista do diário Eurasianet.org, especializado na região do Cáucaso, afirma que Baku usa “a ameaça iraniana para conseguir simpatia no Ocidente. Mas também é verdade que a retórica do Irã contra os interesses estratégicos de Baku no Cáspio aumentou”.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios