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Beirute e Tel Aviv veriam apenas morte e destruição em guerra de Teerã

gustavochacra

08 de janeiro de 2009 | 07h04

O Líbano não é Gaza. Os israelenses sabem os enormes riscos de uma nova frente do conflito na fronteira norte de seu país. Os libaneses, em sua maioria, tampouco estão dispostos a um novo conflito contra os israelenses. Mas hoje de manhã, pela primeira vez desde a eclosão dos combates em Gaza, cinco foguetes lançados provavelmente por um grupo palestino atingiram o território israelense. Moradores do norte de Israel se refugiaram em abrigos anti-bomba. Disparos contra o sul libanês foram realizados em represália. O temor em Israel era de que os foguetes tivessem sido lançados pelo Hezbollah. Afinal, os israelenses têm medo do grupo xiita libanês. Sabem do poder de fogo do Hezbollah. Sabem que não existe comparação de uma guerra contra o Hamas e outra contra o Hezbollah. Um conflito na frente norte significaria ataques de mísseis contra Haifa e, muito provavelmente, contra Tel Aviv. Não seriam dez mortes no lado israelense. Mas talvez centenas.

Os libaneses também sabem que uma guerra contra “os bregas” israelenses, como gostam dizer em círculos sofisticados da elite libanesa em Beirute, significará mais uma vez o fim da boa vida à margem do Mediterrâneo, com seus cafés, lojas e restaurantes fechando as portas em meio a bombardeios de Israel que muitas vezes vão bem além de alvos do Hezbollah. Significará mais uma crise humanitária como a de 2006, quando milhares de refugiados tiveram que deixar o sul do Líbano e se aglomerar na praça Synaya em Beirute. Mas naquela época era verão. Uma guerra agora seria no inverno.

Conforme escrevi em reportagem hoje no Estado, o Hezbollah tem o apoio de quase a totalidade da população xiita do Líbano, que representa cerca de 40% de todo os habitantes do país. Atualmente, o partido lidera a oposição, mas, após um acordo com a coalizão governista (liderada por sunitas), passou a fazer parte de um governo de união nacional que tem o objetivo de evitar uma nova guerra civil no Líbano. Este acordo é frágil e os dois lados possuem enormes diferenças. Mas, nos últimos meses, foram abertos canais de diálogo. Nesta semana, Saad Hariri, o principal líder sunita e rival do grupo xiita deu garantias para a imprensa libanesa de que o Hezbollah não atacará Israel.

A organização xiita também teria seus próprios interesses políticos prejudicados em caso de um confronto. O Hezbollah é aliado de uma facção cristã – contrária a um conflito contra Israel – que será fundamental para que o partido consiga vencer as eleições parlamentares marcadas para junho.

Há ainda complicações logísticas, já que, apesar de mais bem armado do que em 2006, hoje o Hezbollah não atua com liberdade total no sul do Líbano, onde existem mais de 10 mil membros da Unifil (Força de Paz da ONU) e outros milhares de militares libaneses.

Outro problema do grupo xiita é que seu principal comandante militar, Imad Mughnyieh, foi morto na explosão de um carro-bomba em Damasco no ano passado e o Hezbollah não conseguiu substituí-lo.

No cenário externo, o Hezbollah recebe a maior parte do seu apoio do Irã, além de ser aliado da Síria. As operações militares do grupo são coordenadas com Teerã.

A questão agora é saber se irão prevalecer as questões internas ou se o regime de Teerã, contrariando a vontade da população libanesa, usará o Hezbollah para abrir uma nova frente contra Israel. E a batalha será no Líbano, já que covardemente os iranianos, os sírios e os israelenses não se atacam diretamente. A única exceção foi o bombardeio de Israel contra um alvo sírio em setembro de 2007. Mas na hora da guerra, quem morre são os libaneses.

O Hezbollah tem a chance de mostrar que se importa mais com a estabilidade do Líbano do que com a destruição de Israel. A elite libanesa pode continuar dizendo que, por mais que bombardeiem Beirute, a “artificial” Tel Aviv, como eles dizem, nunca chegará a ter o charme franco-árabe da capital libanesa. Pode até ser verdade, mas se o Hezbollah provocar, mais uma vez a cidade mais bonita do Oriente Médio ficará em ruínas e os elegantes libaneses correrão para Paris, São Paulo e Dubai, enquanto o Hezbollah se fortalece ainda mais, o que ajuda apenas ao Irã – não ao país dos cedros.

Israel e o Líbano tinham tudo para viver em paz. Acreditem. Nos últimos meses, passei pelos dois países e não faz sentido algum que a Karma, minha melhor amiga libanesa, não possa visitar o Boaz, meu melhor amigo israelense, apesar de os dois terem convivido juntos em Nova York.

* Estou a caminho da fronteira com o Líbano.

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