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Beirute era a Paris do Oriente; agora, Paris é a Beirute do Ocidente. Por que?

gustavochacra

18 de novembro de 2015 | 12h14

Ao chegar a um café em Ashrafyieh, bairro cristão de Beirute, possivelmente o garçom te receberá dizendo “Bonjour”. A livraria mais tradicional do Líbano se chama Antoine e sua matriz fica na multireligiosa e cosmopolita Hamra. Dentro, há mais livros em francês do que em árabe. O shopping ABC, um dos mais caros da cidade, tem os cardápios dos restaurantes e as etiquetas das lojas em francês. Os jovens da classe média e da elite libanesa costumam frequentar liceus franceses. Um dos principais jornais do Líbano se chama L’Orient le Jour. Uma das melhores universidades é a Université Saint Jouseph.

Muitos libaneses são fluentes em francês, assim como em inglês e em árabe, e o país se considera parte do mundo francófono. Algumas ruas da cidade lembram Paris. E, para completar, o Líbano foi por mais de 20 anos um mandato francês. Os franceses sempre se consideraram defensores do Líbano. A bandeira libanesa, até a independência, era a da França com um cedro no meio.

Por estes motivos e muitos outros, Beirute era a chamada de a Paris do Oriente Médio. A cidade mais ocidentalizada do Oriente. Os franceses sempre viram o Líbano quase como um filho adotivo. Na França, ser do “Liban” sempre foi um diferencial. Arrisco dizer que muitos libaneses defendem que o país seja parte da França. Os que vivem em Paris são super integrados, assim como ocorre no Brasil.

A partir dos anos 1970, porém, Beirute passou a ser sinônimo de violência. Mesmo com a paz e a cidade reconstruída depois de 15 anos de Guerra Civil, o terrorismo e a instabilidade nunca acabaram totalmente. Dizer que Beirute era a Paris do Oriente Médio, por mais que se valorize a beleza, sofisticação e cosmopolitismo da capital libanesa, deixou de fazer sentido.

Hoje, porém, dá para dizer que Paris virou a Beirute da Europa. E no sentido ruim, infelizmente. A capital francesa se tornou, como a libanesa, sinônimo de terrorismo. Ambas foram alvos de atentado na semana passada. Uma pena. Gosto muito de Paris e este atentado atingiu o que há de melhor na cidade, com sua juventude buscando desfrutar a vida. Os jovens de Beirute, uma cidade que tenho um carinho especial por ter minhas origens no Líbano e que vou visitar todos os anos para não esquecer de onde eu vim, já tiveram de se acostumar a viver com a incerteza. O mundo ficou pior, sem dúvida.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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