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Beirute quer paz

gustavochacra

17 de setembro de 2008 | 13h07

No ano passado, vim a Beirute três vezes e fiquei cerca de um mês em cada uma delas. Em todas, parecia que o Líbano rumava para a guerra civil. A oposição e o governo não chegavam a um acordo para saber quem seria o futuro presidente do país, enquanto o mandato de Emile Lahoud chegava ao fim. Nas ruas, muitos libaneses afirmavam que uma nova guerra civil começaria em determinada data, que variava de “amanhã” a “daqui um ano”.

Essa guerra esteve muito perto de ocorrer em maio do ano passado, quando o Hezbollah ocupou as ruas da área sunita de Beirute em poucas horas e muitos passaram a temer que o grupo xiita tomaria o poder. Mas em uma sucessão de acontecimentos positivos, o Hezbollah e os governistas aceitaram sentar para negociar e acabaram elegendo Michel Suleiman presidente.

Hoje, de volta ao Líbano, todos os lados estão ainda na mesa de negociações para o que os libaneses chamam de “diálogo nacional”. Um dos temas mais importantes é o destino das armas do Hezbollah. Mas não pretendo discutir isso neste post. O que quero deixar claro é que o ambiente de Beirute não é o mesmo do ano passado. Ninguém fala em guerra civil, apesar de confrontos em Trípoli, no vale Beqa, no Shuf, de um carro-bomba ter matado um político na semana passada e de duas pessoas morrerem em confrontos envolvendo milícias cristãs hoje. Hoje o discurso dos líderes do país, seja ele o xiita Hassan Nasrallah, o sunita Saad Hariri, o druzo Walid Jumblat, ou os cristãos maronitas e inimigos entre si Samir Gaegea e Michel Aoun não é belicoso. Todos parecem dispostos a negociar.

O melhor termômetro de Beirute é o centro da cidade, conhecido como Solidere. Na guerra civil, esta área que se situa entre as regiões muçulmanas e cristãs de Beirute foi completamente destruída. Com o fim da guerra, na primeira metade dos anos 90, era uma zona deserta. Quando estive aqui pela primeira vez, em 1997, as obras apenas começavam e todos os prédios ainda estavam destruídos. Voltei em 1999, e as obras estavam a todo vapor. Em 2003, o Solidere, já reconstruído, ficava lotado todas as noites de turistas e moradores da cidade, fossem uma xiita de cabeça coberta tomando sorvete, ou uma jovem cristã ortodoxa de mini-saia bebendo cerveja. No ano passado, porém, não havia ninguém no centro, a não ser jornalistas e soldados. As lojas fechadas e restaurantes vazios. O problema é que toda a área havia sido cercada por um acampamento do Hezbollah e de seus aliados cristãos.

Ao visitar o Solidere hoje à tarde, vi uma imagem que me lembrou em parte 2003. Algumas crianças brincando, os restaurantes com mesas cheias e as lojas reabertas. Como é ramadã (mês sagrado dos muçulmanos), o lugar não está tão lotado como antes da ocupação. E ainda é obrigatório abrir a mochila nas esquinas e soldados circulam carregando fuzis. Mas, no geral, não é muito diferente de Santos, Alexandria, Nápoles ou qualquer outra cidade beira-mar do mesmo tamanho.

Apesar de todos os inúmeros conflitos internos e externos que o Líbano ainda tem que resolver, Beirute quer paz. Mas, em Beirute, nunca ninguém sabe o que vai acontecer. Todos apostavam em guerra civil em 2007. Erraram. Mas quase ninguém, em junho de 2006, imaginava uma guerra. Ela veio no julho seguinte, contra Israel.

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