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Bloomberg é um ótimo prefeito, mas tem direito de disputar um terceiro mandato?

gustavochacra

24 de outubro de 2009 | 13h16

Michael Bloomberg foi um grande prefeito para Nova York nos seus oito anos no poder. Pesquisas de opinião pública registram a sua enorme popularidade. A cidade, que já foi sinônimo de Máfia e violência, é uma das mais seguras entre as grandes metrópoles do mundo, sem a tensão da tolerância zero dos anos Giuliani. Mas não dá para deixar de notar dois problemas graves relacionados à candidatura Bloomberg pela terceira vez

1 – Ele conseguiu com que os legisladores alterassem a lei para permitir que disputasse agora um terceiro mandato. Antes, o limite era dois termos de quatro anos. Esta iniciativa faz lembrar figuras não tão democráticas, como o venezuelano Hugo Chávez. Pior, o jornal The New York Times, em editorial, além de apoiar Bloomberg, o que seria normal devido à sua excelente administração, não coloca a ressalva do terceiro mandato. Na verdade, afirma como todas as letras que “limites para termos reduzem as opções dos eleitores”. Líderes bolivarianos devem estar vibrando.

2 – Bloomberg é bilionário por mérito próprio. Pode e deve gastar seu dinheiro como bem entender. Porém seus gastos na campanha eleitoral geram um desequilíbrio que torna quase impossível vencê-lo em uma disputa. O atual prefeito, de novo segundo o New York Times, gastou até agora US$ 85 milhões e pode chegar, se mantiver o atual ritmo de gastos, a cerca de US$ 140 milhões no dia da votação, em 2 de novembro. Dinheiro dele, insisto. Mas, desta forma, apenas outro bilionário poderia superá-lo. Seus adversários precisam arrecadar de uma forma comum. O principal rival, William Thompson, do Partido Democrata, conseguiu US$ 6 milhões até agora, menos de um décimo.

Este cenário provoca uma discussão ética importante. Bloomberg é um excelente prefeito e administrador. Certamente, se Nova York fosse uma empresa, ele seria o melhor CEO disponível no mercado. Qualquer conselho de acionistas de uma multinacional gostaria de ter Bloomberg no comando. Como é bilionário, não possui incentivo para a corrupção – isso não significa não existem pessoas com bilhões e corruptas, mas este não é o caso de Bloomberg. Logo, seria o prefeito dos sonhos. Mas Nova York não é uma empresa. Na democracia, existem leis que devem ser respeitadas. Ao disputar um terceiro mandato, Bloomberg abre um precedente grave. Líderes menos respeitáveis ao redor do mundo dirão – “Se até em Nova York permitiram uma segunda reeleição, por que nós não podemos mudar as regras também?”.

Além disso, outros bilionários, talvez sem o mesmo talento que Bloomberg, poderão torrar suas fortunas para conquistarem cargos eletivos. Mais complicado, pessoas com pouco dinheiro enfrentarão o obstáculo financeiro para entrar na vida pública. Uma pena o New York Times não ter alertado para este ponto.

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