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Brasil nunca defendeu repressão das forças de Assad na Síria

gustavochacra

18 de novembro de 2011 | 12h26

no twitter @gugachacra

Existe uma confusão em relação à posição do Brasil na crise síria. Uma série de vezes, o governo brasileiro condenou a repressão das forças de Bashar al Assad aos opositores. O principal fórum para estas declarações tem sido o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Mas eu mesmo já ouvi aqui em Nova York o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, criticando as ações de Damasco. Em nenhum momento, o Itamaraty tentou justificar a violência do regime sírio.

No Conselho de Segurança, a posição do Brasil é mais ambígua. Na votação da resolução, no dia 4 de outubro, os brasileiros se abstiveram. Dentro do Itamaraty, alguns concordavam com o texto. Mas, no fim, a presidente Dilma Rousseff optou pela abstenção. Diversos fatores políticos e diplomáticos pesaram. Entre eles, o uso da resolução contra a Líbia estabelecendo uma zona de exclusão aérea que no fim serviu para a intervenção militar – o Brasil achou um desrespeito às decisões da ONU. Além disso, o órgão em Nova York é visto como a última instância da paz mundial. Questões de direitos humanos devem ser resolvidas em Genebra.

Para completar, o Brasil defende um diálogo na Síria e acha que uma mudança de regime, neste momento, sem uma transição envolvendo o próprio Assad, pode levar a uma guerra civil. Na época, os brasileiros, assim como os demais membros do BRICS, já alertavam para a existência de uma oposição armada, que não era mencionada no texto. Países europeus, ainda que off the redord, também admitiam a existência das milícias.

Até setembro, o discurso internacional era o de haver um regime matando manifestantes pacíficos. Foi assim no começo e ainda centenas de inocentes são mortos pelas mãos das forças de segurança. Mas, quando estive em Damasco e mesmo antes disso, já advertia também para estes grupos e de confrontos armados entre forças do governo e da oposição.

Hoje, conforme afirmou corretamente o chanceler da Rússia, que tem seus próprios interesses, a Síria é um país à beira de uma guerra civil. Na minha opinião, praticamente impossível de ser evitada, independentemente de resoluções no Conselho de Segurança e da suspensão da Liga Árabe (com  voto a favor do genocida do Sudão).

Na Líbia, os EUA e a União Européia apoiaram a remoção de Kadafi. Certos ou errados, acabaram prejudicando Israel, por incrível que pareça. Os armamentos dos rebeldes começaram a ser contrabandeados através do Egito para Gaza e caíram nas mãos do Hamas.

Em política externa, todas estas questões precisam ser levadas em consideração.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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