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Brasileiro-iraniano explica a perseguição da religião Bahá’í pelo regime do Irã

gustavochacra

05 de maio de 2009 | 16h17

Para explicar um pouco a perseguição sofrida pelos Bahá’í no Irã, entrevistei Flavio Azm Rassekh. A entrevista seria publicada durante a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmedinejad, ao Brasil, que acabou cancelada. Mais grave do que as declarações anti-Israel do líder iraniano, é a situação vivida pelos Bahá’í no Irã.

Primeiro, segue a biografia do Rassekh, de 41 anos, escrita por ele próprio. Parece inacreditável, mas este diretor de cinema brasileiro consegue ter no seu sangue quase todas as questões iranianas.

“Sou brasileiro, filho de imigrantes iranianos. Cresci entre duas famílias. Meu lado materno tem origem muçulmana. Por parte de pai, sou bahá’í de origem judaica. Sou Arquiteto formado pela FAU-USP e fiz o curso de Cinema e TV pela Universidade da Califórnia. Sou Conselheiro do Conpaz, (Conselho Parlamentar para Cultura de Paz da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) e trabalhei como consultor na área de Cultura de Paz junto a diversas prefeituras do estado de SP. Dirigi o documentário DNA Brasil e participei da produção, roteiro e direção de arte do filme “Arquitetura da Unidade” para a TV Cultura. Hoje trabalho na produção de um novo documentário com foco na visão de mulheres brasileiras que viajaram ao Irã”

Blog – Quem são e o que é a Fé Bahá’í?

Rassekh – A Fé Bahá’í é uma religião mundial, independente, com suas próprias leis e textos sagrados. Surgiu na antiga Pérsia, atual Irã em 1844 e foi fundada por Mirzá Husayn Ali (1817-1892) mais tarde conhecido como Bahá’u’lláh. Não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio. Um aspecto importante da Fé Bahá’í é a crença de que todas as grandes religiões do mundo tem a mesma origem, vem do mesmo Deus. As diferenças que identificamos hoje são fruto do momento histórico em que surgiram e da cultura da população local. Existe no pensamento bahá’í a percepção de que todas as religiões fazem parte de um processo maior de educação espiritual da humanidade. Por isso não estaria errado quem afirma que os bahá’is aceitam todas as religiões como se fossem uma só.

Os bahá’ís incentivam a independente pesquisa da verdade e a harmonia entre ciência e religião. Acreditam na abolição de todos os tipos de preconceito, prescrevem que o homem e a mulher devem ter os mesmos direitos e enfatizam que a religião deve ser sempre causa de unidade. Se ao contrário, for causa de desunião e guerra, o ideal seria que ela não existisse. A Comunidade Bahá’í tem aproximadamente 7 milhões de adeptos no mundo, é a segunda religião mais espalhada do globo, superada apenas pelo Cristianismo, conforme afirma a Enciclopédia Britânica.

Os bahá’ís residem em 178 países do mundo, em praticamente todos os territórios e ilhas. Uma das características distintivas da comunidade Bahá’í é a sua diversidade étnica. São aborigenes da Australia, Mapuches e Tobas na Argentina, índios na Bahia, Africanos, Europeus, Chineses e Russos. Tem comunidades nas menores ilhas do oceano pacífico e templos como os de Samoa Ocidental, Frankfurt na Alemanhã e Nova Delhi na India.

A Comunidade Bahá’í está estabelecida no Brasil desde fevereiro de 1921, com a vinda da Sra. Leonora Armstrong. Hoje os bahá’ís formam um contingente de aproximadamente 57.000 pessoas, das mais diversas raças, classes sociais, culturais e econômicas, residentes em aproximadamente 1.215 cidades e municípios brasileiros, do extremo norte do país até o Rio Grande do Sul.
A Comunidade Bahá’í é reconhecida no Brasil e no exterior por estabelecer projetos de desenvolvimento econômico e social além de projetos educacionais em comunidades carentes.

Blog – Como é a situação deles no Irã?

Rassekh – Os Bahá’ís são perseguidos no Irã desde a fundação da religião. Todo os governos iranianos, em maior ou menor grau, têm encontrado desculpas convenientes para promover campanhas de perseguição aos Bahá’ís. Em um momento foram acusados de relacionamento espúrio com os russos. Em outro, eram espiões da Inglaterra. Nos últimos tempos seriam ligados aos EUA e Israel.

A justificativa parece simples e banal, afinal o centro mundial bahá’í é em Haifa, Israel. Como os bahá’ís do mundo todo se comunicam com o centro mundial de alguma forma, por associação, dizem que eles são sionistas. O governo Iraniano se esquece de dizer a opinião pública que os fundadores da fé Bahá’í foram exilados como prisioneiros para a colonia penal de Acre, na Palestina, em 1868. Quem estuda a história da região e da Fé Bahá’í sabe que o estado de Israel só seria fundado nesse território 80 anos depois.

Os lideres religiosos iranianos têm, desde a revolução de 1979, promovido uma campanha orquestrada para acabar com uma comunidade de mais de 300 mil pessoas. Em 1990 chegou as mãos das Nações Unidas o memorando Golpaygani, um documento que delineava como deveria ser destruída a comunidade Bahá’í dentro do Irã. A justificativa religiosa era o crime de apostasia. Punível com com a pena de morte.

Nesses 30 anos desde a revolução, mais de 220 líderes da comunidade bahá’í foram mortos, locais sagrados demolidos, jovens expulsos de universidades, crianças maltratadas nas escolas, cemitérios destruídos além da perda do direito ao trabalho, isso sem falar da perda do direito as pensões e aposentadorias. Um outro aspecto interessante é o fato de os acusados não terem direito a um advogado de defesa.

O atual governo só aumentou a pressão sobre os bahá’ís, criando assim uma situação insustentável do ponto de vista dos direitos humanos. A única saída apresentada aos Bahá’ís presos antes de sua condenação é a negação da sua fé em público.

Blog – Uma derrota de Ahmedinejad pode melhorar a vida dos Baha’i no Irã?

Rassekh – Não acredito que haverá mudança significativa depois da eleição. Nenhum dos candidatos têm a liberdade de se opor as orientações do líder supremo do Irã. O conceito de apostasia é muito forte dentro desse grupo. Não imagino que do dia para a noite eles possam aceitar que a Fé Bahá’í é uma religião válida e independente. Como todos já sabem, não existe imprensa livre naquele país e os candidatos são previamente escolhidos (e aprovados) pela cúpula religiosa a partir de uma lista. Só em um milagre poderíamos imaginar que dentro desse sistema haveria algum espaço para uma verdadeira mudança. Lembrem-se que a “democracia” no Irã não segue o modelo que conhecemos.

Pessoalmente, espero que num futuro próximo a população se sensibilize e procure saber a verdade sobre o que está acontecendo. Não são só os bahá’ís que são perseguidos. A lista é grande, sugiro ao leitor fazer uma pesquisa sobre a situação dos Curdos, Sunitas, Sufis, Cristãos, homosexuais e mulheres daquele país.

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