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Briga Israel-Turquia mostra que o Oriente Médio virou uma imensa Beirute

gustavochacra

02 Setembro 2011 | 11h09

O   @gugachacra  foi escolhido como um dos twitters mais influentes da América Latina pela revista Foreign Policy e é o único brasileiro incluído nesta categoria

O texto de hoje é uma homenagem ao maior historiador libanês, Kamal Salibi, que morreu ontem em Beirute. Sua obra “A House of Many Mansions” talvez seja a melhor para entender o Líbano e até mesmo o Oriente Médio, onde “muitas mansões tentam ocupar o terreno de uma mesma casa”

O Oriente Médio virou definitivamente a terra do cada um por si. Não existe mais nenhuma aliança entre países e todos apenas se preocupam com a sua opinião pública interna. E dane-se o resto do mundo, os países vizinhos, a ONU ou quem quer que seja.

O último episódio foi o relatório da ONU sobre a flotilha de Gaza, em maio do ano passado. Os investigadores das Nações Unidas consideraram o bloqueio israelense ao território palestino como sendo legal. Mas disseram que, apesar de os militares israelenses terem sido recebidos com hostilidade pelos manifestantes e terem a sua segurança em risco, a reação foi excessiva, culminando nas nove mortes. O governo turco, também de acordo com a investigação, poderia ter feito mais para impedir a ação organizada dos membros da flotilha.

Com a publicação deste relatório, a Turquia exige que Israel peça desculpas pelas mortes. Isso não vai acontecer. Em resposta, os turcos expulsaram o embaixador israelense de Ancara e dizem que este é apenas o primeiro passo. Basicamente, as duas maiores potências da região e aliadas por décadas rumam para uma inimizade.

Israel também já está com as relações estremecidas com o Egito.  O atual governo egípcio não se dá bem com a Arábia Saudita. Riad que é o maior rival de Teerã em Bahrain ao mesmo tempo que tenta isolar Bashar al Assad na Síria. O regime de Damasco, por sua vez, se distancia da Turquia e toma bronca até do Irã. Isso não quer dizer que os iranianos e os turcos vivam uma lua de mel.

Nos tempos de primavera árabe, o Oriente Médio virou a terra do cada um por si. E isso inclui as três nações não-árabes – Israel, Turquia e Irã. Devagar, toda a região vira uma imensa Beirute da Guerra Civil, dividida em facções que pouco se interessam pelo destino dos outros, mas apenas na sua sobrevivência. Curiosamente, o Líbano sempre foi o país árabe com mais liberdade e o com mais conflitos.

Obs. A Turquia fica parte na Europa, parte no Oriente Médio. Apenas para não reclamarem depois

Sigam a cobertura no site do Portal do Estadão sobre o 11 de Setembro. Leiam ainda o Radar Global 

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios