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Colinas do Golã – Netanyahu caiu na armadilha de Bashar?

gustavochacra

06 de junho de 2011 | 12h08

no twitter @gugachacra

Não está claro o que aconteceu ontem na fronteira entre Israel e a Síria, nas colinas do Golã. O regime sírio, sem credibilidade, afirma que 23 pessoas morreram. As Forças de Israel questionam este número. Tampouco ficou claro se os manifestantes estavam armados ou não e se seus fins eram pacíficos. Por último, há informações de que Bashar al Assad, buscando desviar a atenção dos protestos contra o seu regime, teria patrocinado financeiramente a ação.

Ao mesmo tempo, sabemos que o governo do Líbano impediu as manifestações na divisa do país com Israel. Tenham certeza de que a medida da administração em Beirute foi coordenada com o Hezbollah. A organização xiita, portanto, teria se colocado contra as manifestações palestinas. O mesmo se aplica ao Hamas em Gaza. Sabemos também que a rede de TV estatal síria transmitiu ao vivo os protestos.

Além destas informações, sabemos que até o início dos levantes contra o regime de Bashar nunca o Exército sírio havia permitido manifestações similares a estas de ontem na região do Golã. Seriam reprimidas duramente. A divisa com Israel foi por quase quatro décadas quase tão calma como a do Brasil com o Uruguai.

Também é de conhecimento internacional que os israelenses anexaram as colinas do Golã em ato não reconhecido pela ONU. Nenhum país do mundo, incluindo os Estados Unidos, reconhecem este território como israelense. É uma área síria sob ocupação israelense. Assad disse diversas vezes, inclusive em entrevista para mim, que esteve perto de um acordo com Israel em 2008. O primeiro-ministro turco, Recep Tayyp Erdogan, confirma esta informação, assim como o ex-premiê de Israel Ehud Olmert.

Por último, iniciativas supostamente pró-palestinas em busca de provocar uma reação violenta de Israel começaram a ocorrer no ano passado com a Flotilha. A condenação internacional à resposta israelense, independentemente do que realmente tenha ocorrido, demonstrou que esta estratégia obteve sucesso em ser anti-Israel, sem ser pró-Palestina. Note que eu acho impossível ser pró-Israel sem ser pró-Palestina. No mundo há os anti-Palestina, os anti-Israel e os pró-Israel&Palestina.

Com os levantes árabes, esta estratégia foi ampliada para as manifestações na fronteira com Israel. A primeira vez foi em maio, no dia do Nakba, como os palestinos denominam a data da criação do Estado israelense. A segunda, agora. O objetivo de quem organiza estas manifestações é o de provocar a morte de palestinos para dizer que “Israel é mau”. Desta forma, acreditam eles, a comunidade internacional se voltará contra os israelenses e ajudará na criação de um Estado palestino. Seriam atos suicidas sem provocar morte do outro lado.

Com base nestas afirmações acima, podemos concluir os seguintes pontos. Primeiro, o regime de Damasco está usando a causa palestina para desviar a atenção de sua repressão a opositores, que já resultou em mil mortes e outras milhares de prisões. Em segundo lugar, o Líbano e o Hezbollah, de forma madura e realista, não querem confusão em suas fronteiras. O Hamas, idem.

Por último, Israel está caindo na armadilha. Fez exatamente o que a Síria e os seus inimigos queriam. Seria mais fácil  permitir a entrada dos manifestantes e prender cada um deles, os deportando em seguida ou, se for o caso, os deixando presos para investigar quem está por trás. Bastaria interrogar e saber se foram pagos por Assad. Chamassem membros da Cruz Vermelha para acompanhar o interrogatório. Mas o governo de Benjamin Netanyahu preferiu advertir com alto-falantes, em árabe, para eles não entrarem. Até este momento, correto. Em seguida, bombas de gás lacrimogêneo. Também correto. Porém o uso de armas de fogo, ainda que não tenha causado vítimas como diz a Síria, ocorreu, segundo as forças israelenses. Para que?

Note que estas manifestações são distintas do que veremos a partir de setembro. Foram de refugiados querendo voltar para a terra de seus ancestrais. As próximas serão de habitantes da Cisjordânia e de Gaza querendo ter um Estado ou cidadania. Táticas de relações públicas mais apuradas, incluindo o uso de bandeiras de Israel e Palestinas lado a lado, além de figuras notáveis, serão usadas. Centenas de milhares de palestinos se juntarão diante do posto de controle de Qalandia. Será uma marcha pelo direito à cidadania, e não ao de retorno. O primeiro desfruta de apoio quase unânime na comunidade internacional.

A única chance de Israel evitar este cenário é concordar em negociar com os palestinos em Paris, em julho. A Autoridade Palestina já aceitou. Se Israel falar não, a França e a Inglaterra ficarão a favor da criação de um Estado Palestino na Assembléia Geral das Nações Unidas em setembro. Será Israel e Estados Unidos contra “a rapa”.

E, antes de terminar, queria saber se alguém viu manifestações da UNDOF (as forças da ONU para as colinas do Golã) sobre o que ocorreu. O silêncio deles demonstra que as forças das Nações Unidas podem ser úteis, como na missão liderada pelo Brasil no Haiti, ou inúteis, como na fronteira entre a Síria e Israel.

Obs. Impressionante como ninguém está preocupado com o Yemen. Fiz a minha parte, escrevendo aqui no blog. Talvez seja o levante mais importante para o mundo, ainda que o egípcio seja para a região. Mas o mundo apenas abre os olhos depois de um 11 de Setembro. Descobriram que existia um país que era o oásis do terrorismo chamado Afeganistão. Vão esperar a parte 2, que quase ocorreu diversas vezes, incluindo no Times Square no ano passado e em Detroit em 2009, para falar do Yemen. Foi o texto com menos interesse em meses entre os leitores. Isso porque vocês gostam de Oriente Médio. Imaginem se fosse em outro lugar.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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