Começam as obras para a reconstrução da sinagoga de Beirute
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Começam as obras para a reconstrução da sinagoga de Beirute

gustavochacra

08 de agosto de 2009 | 13h44

Todos os prédios do centro de Beirute foram destruídos nos 15 anos de Guerra Civil (1975-90). Igrejas, bancos, o Parlamento, restaurantes, tudo era ruína. Ninguém vivia nesta parte da cidade, com o bairro sunita à oeste, o cristão, a leste. Era um cemitério, uma ferida aberta dos dias que os libaneses se matavam. Até o bilionário Rafik Hariri, que em vez de montar uma milícia ganhou dinheiro com a construção civil na Arábia Saudita durante o conflito, assumir o posto de primeiro-ministro do Líbano.

Em uma das maiores reconstruções da história da humanidade, quase todo o centro de Beirute foi reerguido pela empresa Solidere, de Hariri, ao longo da década passada. Os donos dos imóveis, sem saída, tinham a opção de receber ações da empresa em troca da concessão de seus prédios para que Hariri os reconstruísse. Não houve alteração na arquitetura. Todos foram reconstruídos da forma como eram na época anterior à guerra civil. Entre 2003 e 2005, o centro de Beirute havia reconquistado o posto de coração da cidade, para perder de novo na guerra de 2006, contra os israelenses, e, nos dois anos seguintes, com a ocupação da área por opositores cristãos seguidores de Michel Aoun e seus aliados xiitas do Hezbollah. Neste verão, se levantando mais uma vez, os libaneses estão de volta às ruas do centre-ville, desfrutando dos mezzes e das frutas servidas nos restaurantes. Os bancos, sorveterias, hotéis e lojas outrora destruídos funcionam normalmente, enquanto religiosos entram em igrejas e mesquitas para rezar.


Fotos tiradas em outubro de 2008 da sinagoga de Beirute. Elas já foram publicadas antes no blog

Estes prédios religiosos não foram tocados pela Solidere, conforme previa a determinação do governo. Cada uma das religiões seria responsável pela reconstrução. Uma Igreja Ortodoxa, por exemplo, deveria ser colocada de pé novamente pelos ortodoxos. O mesmo valia para as igrejas maronitas, assírias, grego-católicas, armênias e qualquer outra denominação cristã. As mesquitas ficaram com os sunitas ou xiitas, dependente do caso.

O problema era quem reconstruiria a sinagoga. Destruído em um ataque do Exército de Israel, nos anos 1980, contra milícia xiita Amal que se refugiava no local, o templo judaico fica bem no coração da capital libanesa. Só que quase não existem mais judeus no Líbano – há, segundo apurei em reportagem em novembro, no máximo 60. Bem menos do que os milhares de poucos décadas atrás.

Apesar de quase inexistentes hoje em Beirute, os judeus libaneses nunca foram expulsos. Eles viviam integrados à sociedade libanesa, mais bem relacionados com os cristãos ortodoxos, os sunitas e os armênios – drusos e maronitas são povos da montanha, enquanto os xiitas se concentravam no sul e em algumas partes do Vale do Beqaa.

Com a criação de Israel, em 1948, a população judaica libanesa aumentou, em vez de diminuir. Judeus sírios, que eram a elite de cidades como Allepo e Damasco, preferiram, em um primeiro momento, se mudar para o Líbano. Francófonos, eles se sentiam à vontade no país dos Cedros.

Ao mesmo tempo que eles chegavam, também desembarcavam os refugiados palestinos. Ironicamente, enquanto os judeus podiam se envolver em qualquer tipo de atividade, os palestinos foram colocados em campos de refugiados e eram tratados como cidadãos de segunda classe. A chegada da OLP, no fim dos anos 1960 e dos 1970, aliada à Guerra dos Seis Dias, em 1967, deixou os judeus em uma situação difícil no Líbano e eles passaram a temer a organização palestina. Começava o movimento emigratório, que se intensificaria na Guerra Civil, de judeus sírios e libaneses para os Estados Unidos, Brasil, Argentina, Canadá e França. Pouco partiram para Israel. Educados e elitizados, alguns não se sentiam bem no Estado judaico, onde o poder estava nas mãos dos judeus europeus, que colocavam os sofisticados judeus sírios, libaneses e iraquianos no mesmo patamar dos marroquinos e iemenitas.

O resultado foi o colapso da comunidade judaica em Beirute, apesar de milhares deles ainda terem direito a voto nas eleições parlamentares. E fim da presença judaica no Líbano ficou representado na sinagoga, abandonada no meio das gruas e guindastes da reconstrução de Beirute. Estive na sinagoga, no ano passado, no Yom Kippur para ver se encontrava algum judeu. Nada, ninguém estava ali dentro.

Em uma iniciativa inédita, com o apoio de judeus da diáspora e de não-judeus libaneses, especialmente estudantes da Universidade Americana de Beirute, finalmente os poucos judeus libaneses, que se recusam a dar entrevistas, conseguiram captar capital e, na semana passada, finalmente começaram as obras. Em breve, Beirute também terá de volta a sua sinagoga e o centro poderá se parecer ainda mais com os tempos de Suíça do Oriente Médio.

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