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Comediante Cohen e seu personagem Bruno mentem sobre o “terrorista” palestino

gustavochacra

16 de agosto de 2009 | 13h52

Bruno, estrela de um filme de mesmo nome em cartaz atualmente nos cinemas, pode ser um personagem, assim como Borat, do comediante britânico Sacha Baron Cohen. Seus filmes são uma mistura de ficção com realidade. Inventar e criar situações são aceitáveis. Algumas vezes, caricatas demais, como no caso do Cazaquistão no filme Borat. Primeiro, ele mentiu a moradores de uma cidade na Romênia sobre o objetivo do filme. Em segundo, fez questão de descrever os cazaques como ignorantes e atrasados, o que não é verdade.

Desta vez, o comediante mentiu no caso do suposto terrorista palestino. Não apenas o personagem Bruno (um austríaco homossexual, em mais um estereótipo), mas o próprio Sacha Baron Cohen – que, na minha opinião, não chega aos pés de um Larry David ou Jerry Seinfeld. Pior, prejudicou a vida de um cidadão palestino, conforme relata o jornal Aramica, de Nova York, voltado para a comunidade árabe da cidade, que entrevistou o suposto terrorista. Vamos às mentiras de Cohen – ele mesmo insistiu na história em entrevistas à TV americana –, segundo a Aramica, que conversou com Ayaman Abu Aita, que seria o suposto terroista.

1.Aita não integra as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa. Na verdade pertence a um grupo ativista pela paz em Beit Sahour, perto de Belém

2.Ele não é muçulmano. Aita é cristão e tesoureiro do Holy Land Trust

3.Ele pertence ao Fatah na Cisjordânia e disputará as eleições parlamentares do ano que vem

4.Casado, Aita tem quatro filhos e é de uma das famílias mais ricas de Belém

5.O palestino não sabia como Cohen o descreveria até assistir ao filme

6.Sua entrevista durou duas horas, Cohen a editou para um minuto e adulterou perguntas e respostas

7.Segundo o filme, o terrorista teria sido entrevistado no campo de refugiados de Ein el-Hilweh, no Líbano. Cohen admite ter sido na Cisjordânia. Mas não menciona que ocorreu em um conhecido hotel de Beit Jala (tradicional cidade cristã palestina) a 50 metros de um checkpoint israelense

8.Cohen mente ao dizer que Aita estava armado. Impossível, já que Aita teve que atravessar um checkpoint israelense para dar a entrevista. Jamais permitiriam que ele carregasse uma arma

9.Na entrevista, Bruno diz que quer ser sequestrado pelos “melhores neste assunto”, já que a “Al Qaeda é muito 2001”, dando a entender que a organização terrorista está fora de moda. No filme, exibem a imagem de Aita dizendo “eu não gosto”. Na realidade, o palestino afirmou – “Eu não sou um terrorista e nunca serei. Nem eu, nem meu povo. Se você quer ficar famoso desta forma, vá encontrar outra pessoa. Não tenho interesse algum em machucá-lo”

10.Bruno diz que Aita e “os membros da Al Qaeda deveriam se barbear, já que Bin Laden parece um Papai Noel sem-teto”. No filme, mostram Aita questionando o tradutor sobre o que tinha sido perguntado e dizendo “vá embora, vá embora”. Na realidade, Aita afirmou – “O que Bin Laden tem a ver comigo? Especialmente porque ele é o que mais prejudicou a causa palestina e as nossas vidas”

11.Cohen disse em entrevista a David Letterman que conseguiu a entrevista com ajuda de um contato na CIA. Na verdade, a entrevista foi conseguida através de um jornalista palestino e o próprio diretor do Holy Trust Fund, Sami Awad, que eu já entrevistei

Com todas estas mentiras, Aita viu a sua relação com conhecidos na Europa e nos Estados Unidos se deteriorar, de acordo com a Aramica. Mesmo em Belém, alguns o condenam por ter permitido que fizessem gozação da causa palestina. Aita pode também perder algumas permissões de circulação concedidas por Israel, que pode taxá-lo de terrorista agora.

A única saída para Aita, assim como para os romenos enganados em Borat, é ir para Justiça.

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