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Como 3 anos mudaram 10 mil anos de história na Síria

gustavochacra

12 de fevereiro de 2014 | 12h45

Três anos atrás, meus pais, meu irmão, minha tia e meus primos pegavam a estrada de Beirute para Damasco, onde ficaram em um hotel de uma família cristã que falava aramaico, a língua de Jesus Cristo. Era comum, muito comum, quem visitasse o Líbano aproveitar uns dias da viagem e cruzar para a Síria. Afinal, até o New York Times, em 2010, havia incluído Damasco como um dos dez destinos obrigatórios naquele ano.

Restaurantes, hotéis boutiques e jovens europeus e americanos deixavam a capital síria vibrante, especialmente dentro dos muros da cidade velha, com a mesquita dos Omíadas e as áreas cristãs de Bab Touma por onde um dia passou Mar Boulus (São Paulo, em árabe). São mais de 10 ml anos de história. Estive muitas vezes na Síria desde 2007, além de uma outra viagem em 1997, também com a minha família, e sempre fui um apaixonado por Damasco, uma das cinco cidades que mais gosto no mundo (Buenos Aires, Nova York e Beirute lideram a lista).

Nunca imaginei que algo pudesse evaporar tão facilmente. Ao ver a Síria, aprendi que realmente a normalidade das pessoas pode entrar em colapso de uma hora para outra. Damasco era uma cidade de terceiro mundo, sem dúvida, mas existia uma classe média educada, um sistema de saúde e de educação razoavelmente decente.

Verdade, por enquanto, Damasco está praticamente intocada, a não ser por alguns subúrbios. Tartus e Latakia também seguem firmes de pé. Mas partes de Aleppo e toda a cidade antiga de Homs (duas das três maiores cidades da Síria) viraram ruínas. E ao vê-las em fotos, não dá para deixar de comparar com a primeira vez que pisei em Beirute, nos anos 1990, e fui ao seu centro velho, completamente arrasado como uma cidade fantasma.

No fim, a capital libanesa se reergueu, sofreu bombardeios de Israel em 2006, e se levantou mais uma vez. No caso da Síria, em cidades como Aleppo e Homs, não vejo a menor perspectiva de uma reconstrução ocorrer nos próximos anos. No máximo, dá para tentar manter Damasco, Tartus e Latakia intactas. Afinal, estas cidades sobreviveram por milênios.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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