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Como a África do Sul do Apartheid NÃO explica a Síria

gustavochacra

06 de dezembro de 2013 | 10h25

Não vou escrever aqui sobre Nelson Mandela porque há muitas informações sobre o líder sul-africano em diversas publicações brasileiras e internacionais. Mas o usarei como referência para comparar com a Guerra da Síria. Afinal, muitos questionam sobre os motivos de não surgir um Mandela na Síria. Minha resposta tem três pontos.

Primeiro, o regime de Bashar al Assad nunca foi de apartheid. Podem fazer comparações dizendo que “uma minoria alauíta (10% da população), favorecendo também outras minorias como as cristãs e druza, submetia a um tratamento de segunda classe a maioria sunita da mesma forma que os afrikaners (brancos de origem holandesa), favorecendo também outras minorias brancas (ingleses e portugueses), submetiam a maioria negra e, em menor escala, colored, a um tratamento de segunda classe. Esta afirmação, porém, está errada

O regime laico de Bashar e, antes dele, de seu pai Hafez, sempre foi laico de viés autoritário, no qual todas as religiões estiveram representadas. A população como um todo sem direitos comuns em sociedades democráticas. Isto é, uma elite política e econômica esteve e está no comando do país em detrimento do restante dos sírios, independentemente da religião.

Sem dúvida, alauítas e, em menor escala, cristãos, proporcionalmente tinham e tem uma participação maior em forças especiais das Forças Armadas. Mas os sunitas dominavam o Partido Baath e grande parte da tradicional elite de Damasco e Aleppo.

Depois de iniciada a guerra, realmente o cenário mudou e a Síria passou sim a ter um viés mais sectário, com alauítas, cristãos e drusos majoritariamente ou quase na sua totalidade defendendo Assad, enquanto a oposição claramente é sunita religiosa. Mesmo assim, não dá para comparar com a África do Sul do Apartheid porque os sunitas laicos, em grande parte, defendem o regime. Não existe, como dizem, um conflito de uma minoria contra uma maioria. Talvez, inclusive, a maior parte da população apoie Assad como dizem muitos analistas e diplomatas.

Em segundo lugar, a África do Sul não chegou a ter uma guerra civil generalizada, como a Síria. Houve, por décadas, instabilidade. Mas jamais algo no patamar visto em Aleppo, Homs e outras cidades sírias. Mandela ajudou justamente a evitar que a África do Sul se convertesse em uma guerra civil similar à que ocorreria anos depois na Síria.

Terceiro, a oposição síria rumou para um viés radical religioso, não moderando a sua voz, e, ao longo deste período de conflito, nenhum herói entre os rebeldes respeitado internacionalmente emergiu – tente se lembrar de pelo menos um. A oposição, atualmente, é associada à Al Qaeda, e não à luta pela libertação, como na África do Sul.

Por último, Mandela, depois de seus anos na prisão, passou a ter como objetivo claro o fim do regime do Apartheid e substituição deste por um multirracial, sem querer se vingar da minoria branca. Esta estratégia, delineada aos poucos, deu segurança para os afrikaners (brancos de origem holandesa há séculos na África) e outras minorias brancas e colored a se sentirem mais seguras em uma transição.

Na Síria, a mudança seria de um regime autoritário, sem liberdades democráticas, mas com liberdades individuais, incluindo religiosa, para possivelmente um regime totalitário comandado por facções ligadas à Al Qaeda. Não há segurança alguma para um cristão apoiar a queda de Assad e defender os rebeldes no poder. Não existe um Mandela do outro lado. Os sírios precisam escolher entre a repressão laica de Assad contra a repressão religiosa de uma Al Qaeda.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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