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Como a diplomacia venceu a guerra e o acordo com o Irã deu certo?

gustavochacra

16 Janeiro 2016 | 20h28

A diplomacia venceu a guerra e o acordo do Irã com os EUA e as outras potências mundiais deu certo. Hoje a Agência Internacional de Energia Atômica confirmou que o Irã enviou 98% de seu urânio enriquecido para o exterior, desmantelou 12 mil centrífugas para enriquecer urânio e também desativou o reator para de plutônio em Arak. Em troca, sanções financeiras e na área de petróleo impostas nos últimos anos pelo Conselho de Segurança da ONU foram levantadas – as unilaterais dos EUA foram mantidas.

Não foi necessário guerra nem bombardeios. A estratégia de Obama e seus aliados chineses, russos, franceses, britânicos e alemães de intensificar as sanções através da ONU antes de negociar, aumentando o poder de barganha, deu certo. Quando os iranianos elegeram um governo moderado e pragmático, para padrões do país, os EUA e as outras potências levaram adiante a diplomacia.

O Irã agora está bem distante de uma bomba atômica e o mundo, certamente, está mais seguro. O acordo poderia ser melhor? Poderia. Mas, dentro do possível, foi a melhor opção. Muitos irão reclamar e usar argumentos, algumas vezes corretos e muitas vezes exagerados, para criticar o acordo. É legítimo. Mas não vejo como uma guerra ou o status quo anti, onde na prática o Irã já tinha condições de ter a bomba, seriam melhores. O Irã está a pelo menos 15 anos de conseguir voltar a pensar em ter uma bomba.

Para completar, a negociação abriu novos canais de diálogo. Hoje o Irã libertou quatro prisioneiros americanos em troca da libertação de iranianos. Durante a semana, marinheiros dos EUA foram liberados menos de 24 horas depois de serem detidos por terem entrado sem autorização na área marítima iraniana. Tudo sem necessidade de guerra ou de agressões verbais.

O Irã, sem dúvida, ainda está longe de ser uma democracia. O regime de Teerã persegue homossexuais e minorias religiosas, como os Baha’i. Os direitos das mulheres também estão bem aquém de Estados democráticos. Há censura contra a imprensa e prisões arbitrárias. Os direitos humanos muitas vezes não são respeitados. Apesar de ter uma comunidade judaica relativamente bem integrada, o regime iraniano propaga um discurso anti-Israel que muitas vezes é antissemita. E, para completar, o Irã, por meio de suas Guardas Revolucionários, também está envolvido em conflitos nos países vizinhos, provocando instabilidade na região.

O acordo nuclear deve ser celebrado, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Em tempo, ignorem as declarações dos pré-candidatos republicanos. Eles certamente manterão o acordo negociado por Obama e Kerry intacto quando forem eleitos, independentemente das críticas que fizerem agora – e isso inclui Donald Trump e Ted Cruz. Claro, desde que o Irã siga respeitando o acordo, o que deve ocorrer, especialmente com o preço do petróleo derretendo e uma classe média iraniana sedenta por integrar o mercado global.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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