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Como a maconha e o casamento gay inspiram os pró-Palestina nos EUA?

gustavochacra

08 de maio de 2015 | 09h51

A estratégia dos defensores dos palestinos nos Estados Unidos é transformar o apoio americano aos israelenses em um tema como a maconha e o casamento gay. Basicamente, tentam associar, com relativo sucesso, cada vez mais uma posição pró-Israel aos republicanos e posições pró-Palestina aos democratas.

Até um passado recente, a maioria absoluta da população americana era contra a legalização da maconha. Em 1969, de acordo com o Gallup, apenas uma em cada dez pessoas era contra a proibição desta droga. Hoje, os defensores da venda da maconha ultrapassam os 50%. Alguns Estados, como o Colorado, efetivamente legalizaram. Normalmente, quem vota democrata é a favor; quem vota nos republicanos, contra.

Apenas um quarto da população americana apoiava o casamento gay em meados da década de 1990, segundo o Gallup. Hoje, a maioria da população é a favor, incluindo o presidente dos EUA, Barack Obama. Inclusive, a maior parte dos americanos vive em Estados onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado. Dependendo de decisão da Suprema Corte, tende a ser legalizado em todo o país. Assim como no caso da maconha, quem vota democrata tende a ser a favor do casamento gay; quem vota nos republicanos tende a ser contra.

O apoio a Israel ainda é sólido nos EUA. Mas algumas tendências devem ser observadas que indicam uma réplica do fenômeno da maconha e do casamento gay. Primeiro, os jovens já são majoritariamente pró-Palestina, assim como foram os primeiros a se posicionar a favor da legalização da maconha e do casamento gay.

No recente conflito entre Israel o Hamas, 51% dos jovens americanos entre 18 e 29 anos disseram que as ações israelenses contra o grupo palestino não eram justificáveis; apenas 25% disseram que estas ações eram justificáveis. O maior apoio a Israel se dá na faixa dos com mais de 65 anos. Surpreendentemente, segundo esta pesquisa da Gallup, a maior parte das mulheres americanas também são críticas de Israel.

No Congresso dos EUA, historicamente, o apoio a Israel era de quase 100%, sendo um dos raros assuntos de consenso entre democratas e republicanos. O atual premiê Benjamin Netanyahu, porém, ao bater de frente com o presidente Obama, polarizou o tema. Embora ainda desfrute do apoio da maioria dos democratas, dezenas de parlamentares americanos do Partido Democrata são abertamente críticos do primeiro-ministro israelense e se recusaram a ouvi-lo no Congresso. Na Casa Branca e no Departamento de Estado, assim como nas capitais europeias, ninguém suporta Netanyahu.

O movimento BDS, pregando o boicote a Israel na comunidade internacional, tem ganho força e passou a ser visto como uma ameaça pelas próprias autoridades israelenses. Sem dúvida, está longe de afetar a economia israelense neste momento. Mas seu progresso assusta.

Neste sentido, o apoio aos palestinos pode superar o apoio aos israelenses entre a população americana em algumas décadas ou mesmo apenas alguns anos.

Mais importante, o Congresso, enquanto Netanyahu estiver no poder, tende a se polarizar ainda mais (certamente diminuiria se Herzog fosse o premiê). E, para complicar mais a situação de Israel, muitos jovens judeus liberais (no sentido americano, não no europeu) votam no Partido Democrata e, em alguns casos, são abertamente críticos de Netanyahu, o associando ao Partido Republicano.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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