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Como Assad, Hezbollah e Hamas podem defender Israel do ISIS e da Al Qaeda?

gustavochacra

05 Julho 2014 | 12h01

Texto meu originalmente publicado na Rua Judaica

O ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria) é o mais radical grupo extremista islâmico da história moderna da humanidade a ponto de a Al Qaeda parecer moderada perto dele. Se os seguidores de Bin Laden se explodem, os do ISIS, que seguem uma vertente ultra radical do braço sunita do islamismo, castram e matam xiitas e alauítas, crucificam cristãos e trucidam até mesmo sunitas moderados. Colecionam inimigos que incluem os EUA, Irã, Hezbollah, governo do Iraque e o regime de Bashar al Assad na Síria. Seus membros nasceram nos subúrbios das grandes cidades europeias, na Ásia Central, em áreas da ex-União Soviética e em diferentes pontos do mundo árabe sunita, como a Líbia ou Iêmen.

Para complicar, há uma enorme chance de o ISIS chegar à fronteira de Israel, se isso já não começou a acontecer e, embora não tenha capacidade de enviar membros para dentro do território israelense ou palestino, esta organização ultra radical possui capacidade de recrutar membros na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Nesta semana, o ISIS fez uma parada na Síria carregando mísseis “que serão direcionados para Israel”.

 Síria e Líbano

Para conter o avanço nas suas fronteiras, Israel precisará trabalhar em coordenação com seus inimigos, ainda que de forma indireta. Bashar al Assad, na Síria, e o Hezbollah, no Líbano, por mais inimigos que sejam de Israel, eles são ainda mais inimigos do ISIS. O regime sírio e o grupo libanês são os únicos capazes de manter o ISIS longe das Colinas do Golã e do sul do Líbano. Você teme o Hezbollah? Lembre que o grupo xiita é aliado de partidos cristãos em Beirute e uma série de investimentos no país.

Agora, imagine o ISIS, que crucifica cristãos e não tem nada a perder na fronteira com Israel? Afinal, não é libanês. Por enquanto, Hezbollah e as Forças Armadas Libanesas têm trabalhado firme para conter o ISIS como vimos em recentes prisões em hotéis na Hamra, mas Beirute foi alvo de atentados do ISIS ou da rival e não menos sanguinária, ligada à Al Qaeda, contra áreas xiitas do país no passado.

 Jordânia e Egito

No caso da Jordânia, o risco também é grande. O ISIS já controla as fronteiras do Iraque com o território jordaniano. Diferentemente de Assad na Síria, o rei Abdullah não conta com a ajuda do Irã, do Hezbollah e da Rússia para lutar contra o ISIS. Seu Exército é bem armado, mas talvez necessite de ajuda de Israel e dos EUA para se defender. Isso, de uma certa forma, já começou, mas precisa ser intensificado – claro, sem chamar a atenção pois poderia haver o efeito adverso e aumentar a insatisfação com o monarca.

No Egito, o cenário melhorou um pouco com a chegada de Sissi ao poder. Embora seja mais ditador autocrático no Egito, ele diz estar comprometido em combater o terrorismo. Mas o Sinai ainda é uma área de crescimento do radicalismo e com possível penetração do ISIS. Sissi perde tempo prendendo membros civis e inocentes da Irmandade em vez de se focar nos terroristas ligados ao ISIS e Frente Nusrah (ambos inimigos também da Irmandade).

Cisjordânia e Gaza

Nas áreas palestinas, Israel precisará usar todos os seus serviços de inteligência. Por mais bizarro que possa parecer, talvez conte com a ajuda indireta do Hamas que não quer um rival entre extremistas – o Hamas, inclusive, é um dos responsáveis para evitar o crescimento da Al Qaeda nas áreas palestinas.

Pode parecer loucura, mas Israel viu seus inimigos mudarem ao longo do tempo. Eram países como Egito, Jordânia e Síria no começo. Hoje dois possuem acordo de paz com os israelenses e o terceiro evita confronto direto desde os anos 1970. O Irã, apesar da retórica, está mais preocupado com o Iraque e a Síria.

Entre os grupos palestinos, não se esqueça, os movimentos eram nacionalistas no começo. George Habash era cristão. Yasser Arafat, embora muçulmano, não era religioso e casou com uma cristã. Ninguém falava em terrorismo islâmico, mas em terrorismo palestino. Com o Hamas, nos anos 1990, vimos um divisor de águas com os primeiros atentados suicidas de viés religioso da história de Israel. Estes se reduziram por políticas de segurança israelense e mudança de estratégia do Hamas.

O risco, agora, é o ISIS. E, nesta guerra, Israel talvez precise da ajuda de seus antigos inimigos – Assad, Irã e Hezbollah – e de ditaduras como a do marechal Sissi e do rei Abdullah. O status quo anti é melhor do que o status quo que está por vir.

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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