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Qual a posição de cada país no conflito do Egito?

gustavochacra

20 de agosto de 2013 | 13h31

A disputa pelo poder no Egito, se levarmos em conta apenas questões domésticas, está dividida entre secularistas, de um lado, e religiosos, do outro. Um cenário bem similar ao da Síria. Os generais, hoje, não se diferem muito de Bashar al Assad internamente. Claro, diferentemente do líder sírio, não são tão protetores dos cristãos e de minorias religiosas. E a oposição egípcia não tem a presença da Al Qaeda, como ocorre na Síria, onde os seguidores da organização terrorista crescem entre os rebeldes.

No cenário externo, porém, não se pode dizer que nações religiosas apoiam a Irmandade e países laicos estão com os militares do Egito. A situação é bem mais complexa, assim como também ocorre na Síria.

Atualmente, podemos dividir assim os países em relação ao conflito no Egito

 A favor dos militares – Arábia Saudita, Síria, Israel, Emirados Árabes e Kuwait

 A favor da Irmandade – Turquia, Qatar e Tunísia

 Neutros – EUA, União Europeia, Líbano, China e Irã

Portanto, os países ultra religiosos do Oriente Médio, como os Emirados Árabes, Kuwait e Arábia Saudita, onde existe apartheid contra as mulheres, defendem os militares. Nestes países tampouco existe democracia. Israel, uma das raras democracias da região, se aliou a estas monarquias absolutistas a favor do regime do general Sisi. Já a Turquia, com uma tradição mais secular, prefere a Irmandade. Por que?

Porque a Irmandade adota o islã político, onde existiria um espaço para democracia dentro do islamismo, como vimos na organização disputando as eleições no ano passado. Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes são infinitamente mais religiosos e conservadores do que a Irmandade. Seus cidadãos também. Portanto não existe o risco de um regime laico, comandado por militares.

Mas, se a democracia desse certo com a Irmandade no Egito, a população saudita, por exemplo, veria no islã político uma alternativa para acabar com a monarquia absolutista dos Saud, mantendo, ao mesmo tempo, tradições religiosas mais conservadoras.

A Turquia, do governo Erdogan, por sua vez, via na Irmandade uma possibilidade de organizações próximas do AKP assumirem o poder e o islã político se tornar uma alternativa clara ao secularismo, sem a necessidade de abdicar totalmente da democracia. Além disso, Erdogan, premiê turco, por nunca ter tolerado os militares de seu país, não suporta os do Egito– na verdade, os egípcios são piores.

Israel, como escrevi ontem, equivocadamente acha que sua segurança estará garantida com os militares. Deveria manter a neutralidade, como fez corretamente no conflito sírio. Afinal, como sabemos, havia coordenação com Bashar al Assad na fronteira das colinas do Golã, até pouco tempo a mais segura de Israel graças à ajuda do líder sírio.

Falando em Síria, por que eles estão com os militares? Porque Morsy era um dos maiores adversários de Assad. A Irmandade também apoia a oposição síria. Agora, Assad vê sua narrativa, de defesa dos cristãos e de minorias religiosas contra o extremismo islâmico, ganhar força também no Egito – sempre lembrando que os militares egípcios jamais foram defensores dos cristãos, diferentemente de Assad e de Saddam Hussein, que sempre protegeram os seguidores do cristianismo em seus países.

A Tunísia, claro, está a favor da Irmandade por ter um partido no poder similar, o Enhada. O Irã não gosta de ambos. Os EUA acham os dois péssimos, embora preferissem trabalhar com a Irmandade. E o Qatar? Quebro a minha cabeça, mas não sei dizer. A Rússia pende para os militares por ser a favor tudo que seja contra o extremismo islâmico e, de alguma forma, favoreça os cristãos árabes, ainda que sua relação com os coptas não seja tão próxima como a com os cristãos ortodoxos da Síria. E a China continuará fazendo negócios com quem estiver no poder.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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