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Gaele, a irmã da “patricinha”, descobre em NY que sua família sobreviveu ao terremoto no Haiti

gustavochacra

23 de janeiro de 2010 | 05h00

Há uma semana, conversei com Mensy Desfeignes, uma haitiana de 17 anos que vive desabrigada com a família no estádio nacional de Porto Príncipe. Bem vestida e fluente em inglês e outras línguas, a menina, apelidada de Kym pelos seus pais, pertence a uma família de classe média. Eu a descrevi como uma Patricinha não no sentido pejorativo, mas no de ser bonita e arrumada. Longe de ser alienada. Assim como a maioria dos haitianos, seus pais perderam tudo no terremoto, inclusive a casa. Agora, eles dependem da ajuda humanitária distribuída aos sobreviventes.

Na conversa com o Estado, Kym relatou a sua história e deu o número do telefone de sua irmã, Gaele, que mora em Nova York. “Tente avisá-la que estamos bem”, pediu. Desde terça-feira, quando retornei de Porto Príncipe para Nova York, vinha tentando ligar para a irmã. Todas as vezes, a mesma mensagem – “The person you have called is unavailable right now. Please, try again latter” (A pessoa para quem você ligou agora não está disponível. Por favor, tente mais tarde). Depois de muita insistência, o telefone tocou três vezes na sexta-feira pela manhã e deu caixa postal. Minutos depois, o número de Gaele aparecia no identificador de chamada do celular. Era ela retornando a ligação.

“Sou um repórter brasileiro que esteve no Haiti e encontrou a sua família. Sua irmã, a Kym, pediu que eu avisasse que todos estão bem. Seu pai, sua mãe, ela e o seu irmãozinho sobreviveram e não ficaram feridos”, afirmei. “Você viu a minha família? Como eles estão, como eles estão?”, gritava de felicidade a jovem estudante de enfermagem. Repeti mais uma vez que todos estavam bem, até ela se acalmar. A haitiana já tinha recebido informações desencontradas sobre o que havia ocorrido com os parentes. E ficou triste por saber que sua família agora vive desabrigada. Sua casa, o quarto onde viveu, todas as suas memórias desmoronaram no terremoto do dia 12 de janeiro.

“Agora, vou tentar trazê-los para cá. Para morar comigo. Não será fácil, mas talvez a Kym consiga. Ela se formou com honra, em primeiro lugar, na escola dela. Podemos tentar uma bolsa de estudos. O inglês dela é perfeito. Minha irmã é muito inteligente, você deve ter percebido”, contou Gaele. Moradora do Brooklyn, ela diz que pretende ir em breve para o Haiti, para ver a família. Mas não sabe se terá condições por causa das aulas e de sua filha de quatro anos. Tampouco tem idéia do que a espera na cidade onde cresceu. “Como eles estão vivendo no estádio? Quem cuida deles?”, perguntou a haitiana. Respondi que o local tem a segurança das tropas brasileiras e recebe ajuda humanitária fornecida pelo Exército dos EUA. Na verdade, quando conversou comigo, Kym havia reclamado. “Não era para estar aqui, nesta fila, morando neste estádio, implorando por comida e água”, disse na semana passada.

Mensy e Gaele deram sorte por eu ter conseguido avisar sobre a sua família. O terremoto em Porto Príncipe deixou dezenas de milhares de haitianos residentes em Nova York desesperados para conseguir informações de seus familiares no Haiti. A maioria deles não sabe o paradeiro de seus parentes. Na capital haitiana, o inverso acontece. Sobreviventes buscam uma forma de avisar que estão bem para pais, filhos, irmãos e irmãs que vivem nos Estados Unidos. E também para sonhar com um visto que os retire do devastado Haiti. Mas a comunicação ainda é precária e mais de dez dias depois do terremoto a falta de informação ainda deixa as pessoas ansiosas para receber e enviar notícias.

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