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Como detalhes da tentativa de golpe mudaram a história da Turquia?

gustavochacra

19 Julho 2016 | 12h18

A história mundial é definida por detalhes. Basta ver como eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Com a tentativa de golpe fracassada na Turquia, mais uma vez, detalhes definiram a história do Oriente Médio.

O que teria ocorrido se os golpistas chegassem 20 minutos antes ao resort onde estava o presidente Recep Tayyp Erdogan e o prendessem? O que teria ocorrido se o avião dele tivesse sido abatido pelos F16 que o tiveram no radar? O que teria ocorrido se ele não conseguisse entrar no ar pelo Facetime? O que teria ocorrido se o premiê tivesse ido à reunião onde seria preso e talvez morto?

O golpe na Turquia, por incrível que pareça, foi bem planejado, embora com algumas falhas. O que definiu seu fracasso, porém, foram detalhes. Eles planejaram sim capturar ou matar Erdogan. O presidente turco, quase que milagrosamente, sobreviveu. E foi hábil ao conseguir mobilizar sua base.

Apenas para deixar claro, Erdogan vinha se enfraquecendo internamente e externamente nos últimos tempos. Estava cada vez mais isolado. Até seu eterno aliado Davutoglu havia deixado o cargo de premiê. Sua popularidade, embora ainda elevada, começava a dar sinais de enfraquecimento. Poderia se deteriorar com a provável queda no crescimento do país. Os partidos opositores vinham se organizando cada vez mais, com novos nomes. Tanto que condenaram o golpe porque ainda tem a esperança de derrotar o AKP no voto no médio prazo.

O aumento no terrorismo mostrava que sua política em relação aos curdos (PKK) e ao ISIS (também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh) estavam fracassando.

Dificilmente, Erdogan conseguiria a maioria necessária para alterar a Constituição e aumentar os poderes do presidente. Ainda assim, ele agia como um autocrata. A imprensa e muitos de seus opositores já eram perseguidos. Jornais foram ocupados. TVs, controladas.

Com o fracasso do golpe, Erdogan intensificou a transformação de seu governo em uma versão turca de Putin. Cerca de 9 mil policiais, 6 mil militares, 3 mil juízes, 30 governadores (de 81 uma Províncias no total) e um terço dos generais e almirantes foram presos.

A Turquia, antes uma admirada democracia, já vinha deixando de ser democrática há algum tempo. A tentativa de golpe intensificou este processo. Caso o golpe tivesse sido bem sucedido, a democracia também seria afetada, mas de uma forma diferente.  Talvez até pior, com risco de conflitos civis. Mas, por detalhes, o golpe fracassou. O certo é que a Turquia estará pior e estaria do mesmo jeito em caso de sucesso do golpe. E está cada vez mais longe de ser democrática.

Em 2011, imaginava-se que países árabes como o Egito se espelhariam na Turquia, que não é árabe, para instalarem democracias. Deu certo na Tunísia, a única democracia árabe ao lado do Líbano. Mas os demais países estão em guerra civil ou seguem como repúblicas autocráticas ou monarquias absolutistas (Kuwait e Marrocos têm um pouco mais de liberdades democráticas). No fim, a Turquia que deixou ser democrática. Uma pena. Os partidos opositores talvez, em breve, não tenham mais a opção de derrotar Erdogan no voto. E democracia inclui eleições, mas também divisão de poderes e respeito a instituições e liberdade de expressão. Erdogan não respeita a as instituições e a divisão de poderes. Os golpistas tampouco.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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