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Como é a inovadora proposta de paz do embaixador de Israel no Brasil?

gustavochacra

25 Setembro 2015 | 09h38

Recebi com ceticismo inicialmente quando Israel anunciou Dani Dayan como seu novo embaixador no Brasil. Líder dos colonos, na minha avaliação inicial, ele não seria a figura ideal para defender o processo de paz entre israelenses e palestinos. Ao contrário, poderia aumentar a polarização em relação a Israel na comunidade brasileira. Além disso, Israel perderia o super elogiado embaixador Reda Mansour, de origem drusa.

Lembrei, no entanto, de ter lido um ano atrás um artigo no New York Times escrito por um líder de colonos que me causou impacto na época por ser extremamente defensor dos palestinos, embora não do Estado Palestino, por mais contraditório que esta postura possa parecer. E o autor é o futuro embaixador de Israel no Brasil, Dani Dayan.

Primeiro, Dayan defende a melhora da condição de vida dos palestinos, retirando todos os obstáculos existentes para a livre circulação deles, incluindo a barreira (muro ou cerca, dependendo da área) que separa Israel da Cisjordânia. “Os palestinos devem ser autorizados a entrar nas cidades (assentamentos) em Judeia e Samaria (Cisjordânia) e atravessar a linha verde (fronteira oficial com Israel) e vice-versa”, disse.

Em segundo lugar, Dayan defende a inclusão dos palestinos no mercado de trabalho israelense. Na visão do futuro embaixador, não há sentido em Israel importar trabalhadores de outros países com tantos palestinos qualificados disponíveis. “Os palestinos precisam retornar para as cidades israelenses. Acadêmicos palestinos devem ser incluídos nas indústrias avançadas de Israel. Um engenheiro palestino de Ramallah deve poder trabalhar em Tel Aviv e um médico palestino tratando de pacientes em um hospital israelense não deve ser algo raro”, escreveu Dayan.

Terceiro, os palestinos devem ter acesso livre aos aeroportos e suas importações e exportações devem ser liberadas, de acordo com o artigo do futuro embaixador de Israel.

Quarto, Israel deve trabalhar “em conjunto com a comunidade internacional” para “melhorar a infraestrutura de água, esgoto, transporte, educação e saúde” dos palestinos “com o objetivo de reduzir as desigualdades entre as sociedades israelense e palestina”. Segundo o futuro embaixador israelense, “isso significa reabilitar os campos de refugiados da Cisjordânia. É inaceitável que a quinta geração de refugiados palestinos continue vivendo na pobreza, pois isso leva à frustração e pobreza. Os moradores dos campos devem ter casas melhores, empregos e acesso à saúde e educação”, segundo Dayan.

Para concluir, Dayan deixa claro que esta não é uma proposta de paz, mas de reconciliação pacífica. E sua proposta é uma das mais inovadoras que eu li em anos e deveria sim servir de base de diálogo para Israel-Palestina. O futuro embaixador pensou fora da caixa. Os palestinos podem viver nas suas próprias cidades, com acesso a uma economia de primeiro mundo como a israelense e sem as barreiras atualmente existentes. Quantos refugiados sírios não sonhariam com isso? Quantos centro-americanos não sonhariam com isso? Aos poucos, se constrói a confiança para a construção de um Estado palestino aliado, e não inimigo erguido através de boicotes e isolamento.

Pena que, nos EUA, o premiê Benjamin Netanyahu não tenha sido tão feliz nas suas nomeações como no Brasil. E pena também que o primeiro-ministro não tenha na agenda propostas como as de Dayan – a única agenda do premiê parece ser a manutenção do status quo.

Para concluir, fica a lição de sempre pesquisar e entender as pessoas antes de emitir uma opinião. No conflito israelense-palestino, dos lugares menos esperados podem vir as melhores ideias. E esta veio de um líder dos colonos, normalmente associados a extremismo e sentimentos anti-palestinos. O futuro embaixador de Israel no Brasil é pró-palestinos e também um colono na Cisjordânia – aliás, em um mundo ideal, as pessoas deveriam poder viver onde quisessem. Meus avós paternos eram do Líbano e viveram no Brasil. Meu irmão é americano e mora no Brasil. Eu sou brasileiro e moro nos EUA.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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