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Como é ser imigrante “ilegal”? Texto de Mario Vitor Rodrigues

gustavochacra

22 de novembro de 2016 | 16h07

Há cerca de 11 milhões de imigrantes sem documentos nos Estados Unidos, incluindo centenas de milhares de brasileiros. A imensa maioria deles veio para cá em busca de uma vida melhor. Lógico, pretendiam vir legalmente, mas isso é quase impossível (vá ao consulado dos EUA hoje e diga que pretende imigrar “legalmente” aos EUA e faça o teste). Donald Trump, na campanha, disse que deportaria todos eles. Como presidente, afirma que deportará 3 milhões. É uma postura totalmente diferente da de outro republicano, Ronald Reagan, que anistiou os imigrantes sem documentos. Afinal, a economia americana precisa deles. E são seres humanos como a gente. O escritor Mario Vitor Rodrigues trabalhou por um período como imigrante em Nova York. Abaixo, ele fez uma crônica de como foi a experiência. Talvez ajude a entender melhor a vida dos imigrantes nos EUA

   Muita calma nessa hora

Logo de início, jamais alimentei dúvidas sobre a origem do sujeito. A tez clara, quiçá tão clara quanto a minha, era insuficiente para despistar seus olhos rasgados e o cabelo bem liso. Tampouco o bigode fino. Chamava-se Hector e não era difícil encontrá-lo dentro de qualquer ônibus na Astoria Boulevard, caso este seguisse em direção aos confins de Jackson Heights.

Sei do que estou falando, trabalhei ao seu lado durante quase todo o ano de 1997, em uma churrascaria vizinha ao Complexo de Flushing, no Queens.

Antes de conseguir uma posição de ajudante de garçom na Green Field Steakhouse, cheguei a fazer um pouco de tudo no salão de um grande restaurante italiano, oito mesas em Tribeca. Conclui à época que, dependendo da função e do horário, o ritmo dos funcionários em um restaurante pequeno poderia beirar o entediante. Eu era feliz e não sabia.

Na churrascaria, propagandeada como brasileira, embora fosse propriedade de coreanos, o salão era enorme, vazio, e em horário de pico parecia infinito. Quanto ao almoço de domingo, prefiro não entrar em detalhes.

Como ajudantes, nossa tarefa consistia em preparar as mesas, servir uma cesta de pães, repor as jarras d’água e auxiliar o garçom da seção no que ele precisasse. Por isso, assumíamos nossas funções antes de a casa abrir, dobrando um por um precisamente quinhentos guardanapos de cor lilás. O ato em si não era muito complicado, de início parecia divertido, mas, devo admitir, até hoje sou incapaz de entrar em um restaurante sem reparar nos mínimos detalhes.

Ao final da jornada, como podem imaginar, exaustos e besuntados de gordura, uns aos outros nos acotovelávamos para a única refeição do dia. Não que deixássemos de beliscar durante o serviço corações de galinha, linguiças e pedaços de cupim intocados e prestes a serem descartados. Com sorte até um naco de alcatra. Mas a refeição completa e o clima de camaradagem, na prática o único momento do dia em que podíamos trocar algumas palavras sem a pressão do batente, esta era sagrada.

Lembro-me de Hector com nitidez porque foi o único minimamente próximo durante toda a minha temporada como ajudante de garçom. E pelas incontáveis vezes em que, sem ganhar nada com isso, me salvou de umas boas trapalhadas.

Lembro-me dele também pelo tom que permeia o debate sobre os imigrantes mundo afora. Especificamente no caso dos EUA, o discurso ganha contornos ainda mais graves, de um revisionismo capaz de colocar em xeque a própria identidade americana.

Ainda não é possível cravar como serão conduzidas as políticas de imigração sob a batuta de Donald Trump. Espero, sinceramente, que muitos de seus arroubos durante a campanha não tenham passado disso, de bravatas engendradas por um candidato sem escrúpulos quando se trata de uma eleição. Exatamente como umas por aí que fizeram o diabo e não terminaram bem.

Mas a verdade é que o estrago já está feito.

Digo, ao instaurar e manipular o medo do diferente por lá, ora falando em terrorismo, ora usando a cartada do desemprego, inadvertidamente Trump conseguiu fazer um strike por aqui. Incendiou um sentimento antiesquerda, em defesa das minorias, que, de tão ferrenho, extrapolou nossas fronteiras.

Se compreendo tal ânsia? Muito. E não só compreendo como também me identifico com ela. Não suporto mais ouvir a retórica populista que só serviu para entorpecer e em seguida assaltar o brasileiro. Trata-se de uma conversa mole, aliás, que ainda levará muito tempo para ser esgarçada pela nossa sociedade.

Dito isto, não há trauma que justifique falta de humanidade ou embace nosso próprio reflexo.

De fato, Trump pode até sacudir a questão imigratória. E seria no mínimo curioso imaginar um país como os Estados Unidos sem o trabalho ilegal, milhões de americanos puros assumindo o lugar de Hector. Mas deveríamos, acima de tudo, nutrir compaixão por aqueles que apenas tentam sobreviver em uma sociedade estranha, avessa a sua presença, para tentar proporcionar aos seus uma vida impossível em seu país de origem.

No fim das contas, se o revanchismo é compreensível, o rancor pela própria imagem é inaceitável.