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Como está a situação dos imigrantes brasileiros nos EUA?

gustavochacra

17 de novembro de 2016 | 14h41

O governo do México já lançou uma iniciativa para ajudar os milhões de mexicanos que vivem em situação ilegal nos Estados Unidos, sem documentos. O Brasil, por enquanto, não se manifestou sobre as centenas de milhares de brasileiros na mesma condição no território americano.

Estes brasileiros são trabalhadores que vieram para os Estados Unidos em busca do sonho americano e para dar uma vida melhor aos seus familiares. Trabalham em diferentes empregos para conseguirem dinheiro não apenas para se sustentarem como também para enviarem para os parentes no Brasil. São pessoas como eu ou você, mas que não conseguiram se encaixar nas regras de imigração nos EUA.

Alguns (poucos), no Brasil, torcem para que Donald Trump cumpra a promessa de deportar os imigrantes sem documentos. Não consigo entender. A pessoa está no Brasil e torce para seus conterrâneos serem expulsos dos Estados Unidos. É inveja? Desinformação? Não sei dizer. Só posso dizer para estes brasileiros do Brasil que torcem pelas deportações que a chance de eles conseguirem um dia viver legalmente nos EUA se reduziu (ou acabou) com a eleição do republicano.

Chegam a argumentar que os brasileiros em situação ilegal deveriam imigrar legalmente. Como se fosse simples. O Brasil não está na loteria do Green Card. Logo, esta alternativa está descartada. As opções que sobram, tirando vistos para casos específicos, é conseguir os vistos de trabalho H1B ou o de expatriado L (além de casar com um cidadão americano).

Para obter o H1B, a pessoa precisa do “sponsor” de uma grande empresa americana. Isto é, que alguma empresa patrocine seu visto. Isso custa caro. A empresa precisa provar não haver nenhum americano capaz de exercer o mesmo serviço. Envolve também custos jurídicos. E, no fim, tem ainda de ser sorteado na “loteria” do H1B, pois há mais pedidos de visto de trabalho (H1B) do que o oferecido pelos EUA. Normalmente, jovens brasileiros formados em engenharia na Poli, com MBA no MIT ou Stanford, enfrentam dificuldade para conseguir o H1B (a grande maioria fracassa e não pode permanecer nos EUA). Imagine um trabalhador comum brasileiro? Impossível. Zero porcento de chance. E, mesmo se um executivo recém saído de Harvard conseguir o H1B, ele não pode mudar de emprego, a não ser que consiga outra empresa para patrociná-lo.

O visto L, de expatriado, é parecido. Mas a pessoa tem de trabalhar em uma grande corporação no exterior e esta prove ser necessário enviá-la por um por período para os EUA. Assim como o H1B, há um limite de anos para permanecer. Normalmente, são executivos em cargos elevados que conseguem o L. Por exemplo, um executivo de um grande banco americano com filial no Brasil.

Mesmo se a pessoa obtiver o H1B ou L, que são extremamente difíceis, ela poderá permanecer por um tempo limitado nos EUA. Precisará, em algum momento, aplicar para o Green Card. E isso não é nada fácil inclusive para estes alto-executivos.

Existe, claro, o visto de investidor. Convenhamos que, neste caso, apenas pessoas muito ricas conseguem. Não são aqueles que pretendem vir trabalhar nos EUA.

Logo, é praticamente impossível um brasileiro sem elevada qualificação profissional ou acadêmica conseguir imigrar legalmente para os Estados Unidos. A alternativa acaba sendo cruzar pela fronteira do México. A maioria, porém, simplesmente entra com o visto B1 (de turista) pelo aeroporto e permanece nos EUA. Alguns, inclusive brasileiros ricos em Miami, vêm com o visto de estudante e pagam um curso de inglês nos EUA. É uma alternativa para quem tem dinheiro.

E os trabalhadores brasileiros sem documentos estão desesperados com a possibilidade de serem deportados pelo futuro governo. Os filhos estão com medo de ir à escola, de sofrerem bullying e de serem denunciados. Os pais sofrem nas mãos de empregadores que podem chantageá-los em troca de os denunciarem para a imigração.

É muito triste ver tudo isso. Sou neto de imigrantes libaneses e italianos. Assim como o presidente do Brasil é filho de imigrantes libaneses e o chanceler é filho de imigrantes italianos. O presidente eleito dos EUA também é neto de imigrantes alemães. Sim, imigraram legalmente. Mas, no passado, era livre. No passado, as barreiras não eram como hoje – muitos dos meus leitores não teriam nascido.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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