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Como fica a Guerra da Síria com Trump presidente?

gustavochacra

14 de novembro de 2016 | 15h44

Quem Assad preferia, Hillary ou Trump?

Seria ruim para Bashar al Assad caso Hillary Clinton fosse eleita presidente. Com Donald Trump na Casa Branca, o cenário é um pouco mais complexo e talvez o líder sírio seja beneficiado pela eleição do republicano. Tanto que alguns de seus assessores celebraram a vitória dele. Ainda assim, o regime sírio deveria manter a cautela.

 Qual a estratégia de Trump para a Síria na campanha?

Ao longo da campanha, Trump deu indicações de que não tem intenção de mudar o regime em Damasco. Inclusive, o futuro presidente avalia que Assad, apoiado pela Rússia, pode ser um aliado na luta contra o terrorismo. O republicano, com razão, alertou para os fracassos nas mudanças de regime levadas adiante por seus antecessores Bush, no Iraque, e Obama, na Líbia. Na visão de Trump, o Grupo Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou Daesh, e outros grupos rebeldes anti-Assad, como o Jeish al Islam (Exército do Islã) e a Frente de Conquista do Levante (antiga Frente Nusrah, ou Al Qaeda da Síria) são as maiores ameaças.

Qual a estratégia de Obama?

A estratégia de Obama de a CIA armar grupos rebeldes supostamente moderados seria suspensa. Já as milícias curdas talvez sigam sendo armadas, dependendo de como Trump se posicionará em relação à Turquia – será tema de outro post ainda nesta semana.

 Por que Trump não quer bater de frente com Assad?

O presidente eleito, portanto, segue uma visão similar a alguns analistas que acompanham a Síria. Eu estou entre eles, embora me posicionasse contra Trump na eleição por questões não relacionadas à Síria. Também avalio, como o republicano, que Assad não deva ser o alvo neste momento. Sim, o líder sírio cometeu crimes contra a humanidade, segundo a ONU. Mas não há uma alternativa para removê-lo do poder sem aprofundar a Síria ainda mais no caos. Afinal, com todos os seus defeitos, Assad mantém a estabilidade nos principais centros urbanos da Síria. Já pensaram se a guerra chegar ao centro de Damasco? Seriam mais milhões de refugiados e a capital síria, quase intacta atualmente, a não ser pelos subúrbios, poderia virar uma nova Aleppo.

 Qual era a estratégia de Hillary?

Hillary defendia o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea na Síria. Eesta talvez fosse uma alternativa razoável para quando a democrata ocupava o cargo de secretária de Estado, no começo da guerra, não agora. O conflito mudou nestes quatro anos. O que Hillary faria se um avião russo sobrevoasse esta zona? Iria abatê-lo, provocando uma escalada militar? O custo é enorme. Hillary também mantinha a intenção de bater de frente com Assad. Os EUA seriam sugados para o conflito sírio neste caso.

O vice Pence e outros republicanos discordam de Trump?

O problema é que Trump talvez seja convencido a mudar de postura. Seu candidato a vice, Mike Pence, propôs, no debate dos candidatos a vice, uma estratégia quase idêntica à de Hillary. Dentro do Partido Republicano, ainda há muitos intervencionistas que pressionarão Trump a se envolver mais no conflito sírio. Algumas nações, como a Arábia Saudita e talvez a Turquia, também tentarão convencer o futuro presidente a endurecer com Assad. Por outro lado, Sissi, do Egito, e Putin, na Rússia, atuarão de forma oposta, com o objetivo de convencer Trump a manter o foco apenas no ISIS. Israel terá outras prioridades (tema de outro post). E pesará muito a questão do Irã – será tema de outro post.

 Quando teremos uma ideia melhor da estratégia de Trump?

Nas próximas semanas, dependendo de quem estiver no Departamento de Estado e no Pentágono, poderemos ter uma ideia melhor se Trump manterá sua postura sobre a Síria da campanha ou se adotará uma estratégia mais intervencionista, similar à de Hillary ou de seu vice, Pence. Talvez até termine no meio-termo, que seria seguir os planos de Obama. Por este motivo, Assad deve manter a cautela. E o líder sírio, que sabe ler bem o cenário geopolítico internacional, já demonstrou disposição de trabalhar com Trump.

Para completar, este post era sobre Assad-Trump, não sobre Trump-ISIS. Este também será tema de outro post ao longo da semana.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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