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Como foi a cobertura do terremoto no Haiti e as perguntas dos leitores

gustavochacra

19 de janeiro de 2010 | 06h09

O jornalista americano Gay Talese escreveu no seu livro “O Reino e o Poder”, sobre a história do New York Times, que os jornalistas preferem “ver países em ruínas e navios a pique do que uma cena sadia, que compõe boa parte da vida”. Eu me lembrei disso quando estava em uma fila de jornalistas para cruzar a fronteira israelense para entrar em Gaza para ver os resultados dos bombardeios. E agora, lutando com outros jornalistas por um espaço em qualquer monomotor para viajar de Santo Domingo para Porto Príncipe na manhã seguinte ao terremoto.

Nós queríamos ver a guerra, o resultado do terremoto, os corpos, a fome, a tragédia. Mas dizer que preferimos isso à normalidade da vida como afirma Talese? Difícil dizer. Moro na mesma cidade que ele, Nova York. A terça-feira do terremoto, uma semana atrás, começou como um dia sem notícia. Pude até almoçar com calma, algo raro quando se trabalha com três horas de diferença no fuso horário. No início da noite, ainda escrevi uma reportagem sobre uma distante briga do Google com o governo chinês. Tudo mudou com a ligação do editor de Internacional, Roberto Lameirinhas, falando sobre o terremoto Haiti. Na hora, eu disse que queria cobrir o terremoto. Procurei passagens na internet e vi uma para Porto Príncipe. Cancelaram o vôo, obviamente. No dia seguinte, bem cedo, embarcava no avião para Santo Domingo com outros jornalistas. Quando vi, estava no centro das notícias do mundo. “Terremotos e guerras”, como diz Talese.

E o Haiti é pior do que Gaza, onde estive no ano passado. Dez vezes pior. Também é pior do que o sul do Líbano depois da guerra do Hezbollah contra Israel. E do que Beirute nos anos posteriores à guerra civil. Vi cenas que nunca imaginei que seriam possíveis. Em 24 horas, deixei Manhattan, considerada a região mais disputada do planeta, para ver corpos carbonizados, outros abandonados na rua, incluindo um bebê largado em uma cartolina. Pessoas sem comida, sem água, sem nada. Bairros inteiros destruídos. Não há perspectiva para este país se reerguer rapidamente. Nem com a ajuda dos heróicos soldados brasileiros e de outros países da MINUSTAH que arriscam a vida para tentar encontrar sobreviventes. Ou com a chegada dos reforços americanos e de agências humanitárias.

Ver todas estas coisas e escrever as reportagens, com a pressão do horário do fechamento, do texto claro, com a internet caindo, e correndo o risco de erros de digitação por causa da velocidade são alguns dos principais desafios de qualquer jornalista. Em uma situação dessas, não dá tempo de se organizar muito e, para facilitar a locomoção, o ideal é trazer apenas uma mochila, com o computador e comidas de emergência dentro. Vim praticamente apenas com a roupa do corpo e sem a pasta de dente e o desodorante, proibidos pelos americanos no aeroporto. A escova eu esqueci em Santo Domingo e tive que escovar com a mão, usando pasta emprestada. No banho, me enxugava com a camiseta. Por sorte, consegui abrigo e comida na base militar brasileira, o melhor lugar para ficar em Porto Príncipe. Todos jornalistas brasileiros estão aqui. Globo, SBT, Band, Estado, Folha, TV Brasil, IG.

Nestas horas, os repórteres tentam se ajudar. Não existe rivalidade e todos trabalham juntos na sala de imprensa e saem em grupos para a rua. Temos nossos pontos de vista. O Fabiano (Folha) e o Rodrigo (Zero Hora) cobriram a crise em Honduras de dentro da embaixada; o Gilberto (O Globo), o terremoto na China; e eu, a guerra em Gaza, conflitos no Líbano e também passei por Tegucigalpa. O Lourival Santanna, meu colega do Estadão no Haiti, deve ter umas dez guerras nas costas, incluindo Iraque e Afeganistão. O que importa é mostrar a história destas pessoas do Haiti com os nossos olhos. Muitas delas foram queimadas ou enterradas sem identificação. Nunca saberemos quem foram, suas memórias, se tinham filhos, se tinham mãe, quem era a namorada, qual o último livro que havia lido, o que comeu no seu último jantar e seus planos para fim do dia interrompido antes do anoitecer pelo terremoto. Outras centenas ou milhares podem estar sob escombros, incluindo estudantes de medicina. Por estas histórias, pegamos filas em Gaza e embarcamos em monomotores de Santo Domingo para Porto Príncipe. Em Manhattan, não veríamos estas cenas. Nem mesmo no 11 de Setembro.

OBS 1. Pediria aos leitores que enviassem todas as questões e críticas à cobertura para eu poder responder no post de amanhã. Já esclareço que, conforme escrevi no texto de ontem, o termo patricinha foi utilizado para descrever uma menina arrumada e de classe média, não alienada. Tanto que citei as qualidades dela, como, por exemplo, ser poliglota. Meu objetivo, como a maioria absoluta dos leitores percebeu, foi aproximá-la do Brasil. Muito menos quis diminuir a Kym, tanto que a achei a pessoa mais especial que conheci em Porto Príncipe. Liguei para a sua irmã Gaele para relatar que o resto da família está bem. O recado diz que o telefone está desligado e não dava para deixar mensagem na caixa postal. Tentarei de novo amanhã. Além disso, a foto dela foi publicada na edição impressa do Estadão, em reportagem que também abordei a história dela

OBS2. A partir de agora, a cobertura do Estadão em Porto Príncipe fica nas mãos do Lourival Santanna e do Leandro Colón. Amanhã, no blog, também contarei a história da travessia da fronteira

OBS3. Há muitos leitores novos, que não me acompanhavam nos tempos de Oriente Médio e, depois, em Nova York. Eu respondo a todos os comentários sempre e existe até um grupo de leitores que se reúne em São Paulo. No Haiti, fiquei sem tempo para responder a perguntas. Por este motivo, insisto, enviem mais uma vez. Porém não serão publicados ataques pessoais, nem contra leitores e, apenas para manter a tradição, os que forem anti-semitas, islamofóbicos, anti-árabes, racistas ou que coloquem um povo como superior ou inferior. Críticas são bem vindas. Vídeos não serão publicados

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