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Um conselho para meus amigos israelenses e pró-Israel – defendam Tel Aviv, não os assentamentos

gustavochacra

12 de fevereiro de 2014 | 17h17

Acompanho o Oriente Médio como jornalista desde 1998. Já seguia bastante o conflito entre israelenses e palestinos bem antes disso. Na Universidade Columbia, fiz mestrado em Relações  Internacionais com foco em Oriente Médio. Tive aula com alguns dos melhores professores do mundo. Li dezenas de livros e continuo lendo até hoje. Passei um ano viajando pelo mundo árabe e Israel. Todos os anos, volto à região. Moro em Nova York, onde comento sobre este tema para TV, rádio e internet, e sempre mantenho contato com especialistas.

Ao longo de todo este período, nunca vi Israel ser tão criticado. Thomas Friedman já alertou sobre esta questão em diversos textos no New York Times. Os israelenses perderam a guerra das relações públicas. Nos últimos anos, cada vez mais, nos EUA, na Europa e no resto do mundo, as políticas israelenses na Cisjordânia perdem apoio.

Nada no mundo fará alterar o cenário de que, se a ocupação persistir, Israel será cada vez mais isolado internacionalmente. Em termos de segurança, os israelenses não precisam chegar a um acordo com os palestinos. Os atentados terroristas vindos da Cisjordânia acabaram – há ainda os foguetes lançados de Gaza, que não mataram ninguém em 2013.

No campo moral, porém, Israel nunca esteve tão inseguro como hoje. Isso é um fato, não minha opinião. John Kerry, secretário de Estado dos EUA, deu literalmente este recado para o governo de Benjamin Netanyahu. Existe sim o risco de Israel, independentemente de se concordar ou não, passar a ser comparado à África do Sul não apenas em Damasco, Islamabad e Jakarta, mas em Estocolmo, Madrid, Berlim e, até mesmo, em Washington.

O futuro será definirdo se Benjamin Netanyahu pender mais para o lado do liberal Yair Lapid, ministro das Finanças e defensor de um acordo com os palestinos, ou para o lado de Naftali Bennett, o conservador ministro da Economia de Israel, que não aceita um Estado palestino.

Netanyahu é um dos últimos políticos inteligentes no mundo, goste-se dele ou não. Ele sabe bem como está este cenário. Conhece como poucos os EUA. Viu que a força da AIPAC diminuiu, com duas derrotas seguidas – não conseguiram convencer o governo Obama a bombardear a Síria e tampouco conseguiram levar adiante no Congresso novas sanções contra o Irã que colocariam em risco o acordo interno entre Washington, seus parceiros internacionais e Teerã.

De verdade, este talvez seja o momento mais importante da história de Israel. Espero que a ideologia do “kibutz”, tão admirada no mundo todo, vença a dos assentamentos, tão criticada. Quanto mais Israel for Tel Aviv e menos for Ariel (o assentamento), mais respeitados serão os israelenses. O foco deve ser em Haifa, não em Hebron.

Note que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, já concordou com a permanência de tropas israelenses na Cisjordânia por cinco anos, sendo substituídas depois por forças da OTAN comandadas pelos EUA (não da ONU, como no sul do Líbano e no Golã), aceitando que a Palestina não tenha Exército. Não tem como ter uma proposta melhor do que esta.

Insisto, uma pessoa que for a Hebron, tende a ir embora com sentimento anti-Israel. Uma que for a Tel Aviv, tende a sair apaixonada pelos israelenses. O mundo precisa da tecnologia e da indústria farmacêutica de Israel. Mas não precisa dos assentamentos

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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