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Como Netanyahu estraga a política externa de Israel?

gustavochacra

20 de julho de 2015 | 10h23

O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, sempre teve o direito de discordar de Barack Obama em relação às negociações com o Irã ou em qualquer outro assunto. Seu dever é defender os interesses de seu país, de acordo com a sua ideologia, afinal foi eleito democraticamente para este fim. Muitas vezes os interesses israelenses não são os mesmos dos americanos, o que é natural mesmo em uma relação fraterna como a dos dois países. Mas o primeiro-ministro israelense foi extremamente incompetente na forma como lidou com a Casa Branca.

Primeiro, por anos, Netanyahu manteve como chanceler Avigdor Lieberman, uma figura polêmica e despreparada para exercer o cargo. Em Washington e Nova York, o então ministro das Relações Exteriores não é levado a sério por ninguém, sendo visto como um bufão. Teria sido mais útil para Israel ter Tzipi Livni no cargo, uma pessoa com uma relação bem mais próxima da administração de Barack Obama e uma imagem ótima no exterior.

Em segundo lugar, o embaixador de Israel em Washington, Ron Dermer, é alinhado com o Partido Republicano e não tem nenhuma influência sobre a Casa Branca, onde nunca é recebido. Poderia até ser um bom político, mas o representante de Israel na capital dos Estados Unidos deveria ser uma pessoa com boas relações com Obama e seu secretário de Estado, John Kerry, ainda que discorde deles em questões como o Irã ou a Palestina. Deve ser uma figura apolítica, assim como muitos embaixadores israelenses no passado. O papel do embaixador sempre foi o de tentar ao máximo convencer o governo americano de que os argumentos de Israel devam ser levados em consideração, e não tratar Obama como se ele fosse um político da oposição israelense.

Terceiro, Netanyahu, ao seguir as recomendações de seu plolêmico embaixador, foi ao Congresso dos EUA à revelia da administração Obama, irritando o presidente e todo o seu governo. O premiê israelense não pode esquecer que ele estava comprando uma briga com o presidente dos Estados Unidos da América, a pessoa mais poderosa do mundo, algo totalmente desnecessário. Se o seu objetivo era um acordo melhor com o Irã, ele deveria ter desenvolvido laços melhores com Obama, explicando seus pontos de vista. Rabin e Barak sempre trataram Clinton como amigo, assim como Sharon e Olmert tratavam Bush. Netanyahu, que já tinha péssimas relações com Clinton, que nunca o suportou, conseguiu ter ainda piores com Obama.

Em Israel e mesmo entre os defensores de Israel no Brasil, há uma ideia de que Netanyahu seja um ídolo nos EUA. Esquecem, no entanto, que Israel era um dos raros temas onde havia um apoio bipartidário entre os americanos. Seu governo e sua postura agressiva fizeram com que um número crescente de democratas se afastasse aos poucos de Israel. Muitos jovens americanos, incluindo judeus liberais, acham o premiê israelense repugnante. E não se iludam com as declarações de Hillary Clinton – ela defenderá Israel até dizer chega na campanha, para, depois de eleita, talvez agir de uma forma ainda mais dura do que Obama. Lembrem, ela e o marido não suportam Netanyahu. E Jeb Bush tem tudo para ser como o pai e não como o irmão.

Basicamente, embora a maioria dos brasileiros ame o Brasil, uma maioria cada vez maior de brasileiros condena o governo de Dilma, o que afeta a imagem brasileira. Israel ainda é respeitado e idolatrado pela maioria dos americanos e dos judeus jovens dos EUA, mas o governo de Netanyahu recebe críticas abertas por sua postura. Infelizmente, o primeiro-ministro israelense se aproxima dos setores políticos americanos anti-imigração e contrários ao casamento gay – dois temas muito importantes para os jovens americanos.

O premiê israelense precisa urgentemente nomear Herzog ou alguém de peso para o cargo de chanceler e demitir seu embaixador em Washington, colocando alguém mais hábil no lugar. Israel precisa muito mais dos EUA do que os EUA precisam de Israel. Todos os países do Oriente Médio se preocupam com a imagem hoje. Basta ver o Irã, que tem como chanceler um PhD em universidade americana, residente por décadas nos EUA; o Líbano, que tem um chanceler cristão, sofisticado e poliglota para vender a imagem cosmopolita de uma Beirute dos anos 1950. A Arábia Saudita, que agora colocou um chanceler jovem, formado em Georgetown. Mesmo o chanceler palestino tem PhD na American University, de Washington. Inacreditável que em Israel não haja ninguém neste momento no posto de chanceler e o anterior era um ex-leão de chácara da Moldóvia.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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